Uma coletânea dos melhores conselhos e pesquisas que já vi
Por Benjamin Todd e a equipe da 80.000 Hours ·
Publicado em inglês pela primeira vez em março de 2021
Traduzido, editado e adaptado pela equipe do Carreiras Eficazes, de modo a atender as necessidades das comunidades lusófonas com autorização dos produtores do texto original.
Talvez o método mais comum de se encontrar uma boa carreira seja identificar suas qualidades e depois elaborar planos que se encaixem nelas.
Este artigo apresenta um resumo dos melhores conselhos que encontrei sobre como identificar suas qualidades, convertidos num processo de três etapas. O artigo também inclui listas de qualidades mais comumente usadas por pesquisadores (para lhe dar uma linguagem com a qual descrever as suas) e um estudo de caso.
Mas primeiro, como advertência, quero dizer que acho o método de ‘o que se encaixa com as qualidades’ para a escolha de carreiras um pouco superestimado.
Talvez o maior risco seja você se restringir baseado em suas qualidades atuais e ignorar seu potencial em desenvolver qualidades novas e maiores. O risco é mais urgente para as pessoas mais jovens, que ainda não têm muitos dados sobre as áreas em que se sairiam bem – o que torna mais provável que seu palpite seja errado – e têm décadas à sua frente para desenvolver novas qualidades.
Você deveria perguntar ‘quais são minhas qualidades?’ e também ‘quais qualidades vale a pena desenvolver?’
De forma mais ampla, já argumentei que muitas vezes é melhor usar o contrário de ‘o que se encaixa em suas qualidades:’ pergunte-se o que o mundo mais precisa e então descubra a melhor maneira como você pode contribuir. Esta orientação o ajudará a focar no desenvolvimento de habilidades valorizadas no mercado e que podem ser utilizadas para resolver problemas globais importantes, o que é essencial para se encontrar uma carreira que tenha significado para você e que seja gratificante.
Penso também que a razão principal de ‘focar em seus pontos fortes’ é encontrar algo que você seja excelente a longo prazo e não acho que simplesmente ‘o que se encaixa com suas qualidades’ seja obviamente a melhor maneira de prever isso.
Com essas ressalvas em mente, ainda acho que ter bem claras as suas qualidades é uma informação útil a considerar ao planejar sua carreira – principalmente depois de você ter tido alguns empregos – e há maneiras melhores de fazer isso do que ditam as normas.
Por exemplo, já reparei que as pessoas muitas vezes pensam sobre suas qualidades de maneira abstrata demais. Michelle, uma das nossas consultoras, achava-se introvertida e portanto, pensava que não se encaixaria bem na função. Mas quando ela refletiu de maneira mais minuciosa sobre que tipo de trabalho estaria envolvido – conversas individuais sobre fazer o bem – ela percebeu que o trabalho, afinal, combinava com suas qualidades.
Tais exercícios também são úteis mesmo se você não estiver procurando emprego no momento. Encontrar maneiras de passar mais tempo pondo em prática as suas qualidades pode também tornar seu emprego atual mais gratificante. (Acho a ‘auditoria de energia’ discutida na Etapa 2 particularmente útil, tanto para mim, como para aqueles com quem trabalho.)
O viés da negatividade significa que normalmente focamos mais em nossos pontos fracos, mas a maioria das pessoas parece concordar que construir uma carreira tem mais a ver com aproveitar-se dos pontos fortes do que melhorar os pontos fracos. (As áreas de seus pontos fracos devem ser mencionadas ao mínimo, simplesmente evitadas ou superadas através da colaboração com pessoas que se saem bem em áreas que não são seu forte.)
Ser capaz de descrever suas qualidades aos outros também é essencial em entrevistas e promoções e estes exercícios podem ajudar com essas partes também.
Finalmente, avaliar suas qualidades é uma das etapas de nosso processo completo de planejamento de carreira — então, se você está querendo planejar sua carreira, este pode ser um bom ponto de partida.
Como identificar suas qualidades pessoais? Um resumo
- Não foque apenas no que você faz bem hoje. As carreiras evoluem ao longo de décadas, e você tem o potencial de desenvolver novas qualidades.
- Examine seu histórico de trabalho, mas tome cuidado para não descartar uma qualidade cedo demais. Considere seu ritmo de melhora comparado ao de outras pessoas com um nível semelhante de experiência e formação e não em termos de desempenho absoluto.
- O que lhe dá energia e motivação também é crucial para a definição de suas qualidades. Na faculdade, é possível se sair bem em uma matéria que não lhe dá energia, mas é difícil sustentar isso por 10 anos ou mais. O que nem parece trabalho (mas é)?
- Peça feedback. O viés da negatividade e a familiaridade nos impedem de enxergar nossas qualidades, então perguntar aos outros é uma das maneiras mais úteis de aprendermos mais sobre nós mesmos. Incluímos aqui algumas perguntas como exemplo.
- Considere de maneira ampla o que conta como qualidade. Considere seus relacionamentos, recursos e reputação, bem como suas habilidades e aptidões — e no âmbito de cada um, considere personalidade, habilidades cognitivas e traços de caráter. Além do tipo de trabalho, pense em que contextos, culturas e tipos de pessoa mais combinam com você.
- Obtenha informações concretas. Dê uma olhada nas últimas semanas no seu calendário. Que atividades lhe dão mais energia?
- Combine e aumente. Pense em como combinar suas qualidades para criar combinações raras, mas úteis. Procure qualidades que você pode continuar aprimorando durante décadas.
- Examine as listas de qualidades criadas através de pesquisas em psicologia, que anexamos no final deste artigo. Infelizmente, tais traços não estão relacionados de maneira simples com seu provável desempenho em empregos que combinem com você. Mas eles estão levemente correlacionados, e parecem ser as categorias mais bem construídas de que dispomos.
Como usar o processo completo
O processo consiste em três etapas:
- Peça feedback e colete dados sobre os pontos de destaque do seu histórico de trabalho
- Reflita sobre perguntas formuladas para determinar suas qualidades principais
- Use as listas baseadas em pesquisa para gerar ideias
Uma versão mais curta poderia envolver passar rapidamente pela Etapa 1, escrever um ou dois parágrafos em resposta a duas perguntas da Etapa 2, e depois dar uma olhada na Etapa 3 para ver se ela esclarece alguma coisa a mais. Ou você poderia passar uma ou duas tardes pensando bastante sobre tudo isso.
O que são qualidades?
Estes são alguns critérios do que constituiria uma qualidade no contexto do planejamento de carreira a longo prazo:
- Algo que — com a prática — você poderia aprender a fazer bem, comparado com (i) outras pessoas que têm essa habilidade e (ii) suas outras habilidades
- Algo de que você gosta o suficiente para poder continuar fazendo durante 10 anos ou mais
- Algo que é amplo o suficiente para ser usado em mais do que dois ou três empregos
- Algo que é estável o suficiente para não mudar de um ano para outro
Digo ‘algo’ porque quero manter a ideia de qualidades ampla. Elas podem envolver habilidades (por exemplo, a escrita, a estatística), a capacidade de trabalhar em certos contextos (por exemplo, sob pressão, numa grande burocracia), recursos (relacionamentos com pessoas influentes), traços de personalidade (por exemplo, persistência, carisma), ou destreza (por exemplo, trabalhar bem com as mãos).
(Para os leitores que já conhecem a 80.000 Horas: As qualidades e o capital de carreira coincidem bastante. Suas qualidades muitas vezes serão seu capital de carreira mais valioso, embora suas qualidades também possam refletir seu potencial futuro além do capital de carreira que você já tem.
1. Colete dados
Reúna todas as informações relevantes. Isto pode ajudá-lo a determinar imediatamente o que você faz bem e também lhe orientar sobre as próximas duas etapas.
Procure os pontos de destaque do seu histórico de trabalho comparados com os de outras pessoas com experiência semelhante
Faça um esboço da sua escolaridade, histórico de trabalho, e hobbies (ou olhe seu currículo/perfil de LinkedIn).
Então, tente identificar os ‘pontos de destaque’ — épocas em que as coisas foram melhores do que de costume ou em que você produziu resultados melhores do que de costume.
Um erro comum é focar demais no seu nível absoluto de desempenho. Leva décadas para alguém atingir um bom nível em muitas habilidades, e não faz sentido se comparar com alguém com muito mais experiência.
Em vez disso, identifique épocas em que você teve um bom desempenho comparado com pessoas com experiência semelhante à sua. De maneira geral, é desejável identificar as habilidades que, dentre um grupo de pessoas com experiência comparável à sua, o nível de suas habilidades se encontre no topo.
Normalmente, você deveria focar mais no ritmo de melhoria do que no desempenho absoluto. O ritmo de melhoria é, ou assim esperamos, um indicador melhor de sucesso a longo prazo e parece ser algo que frequentemente distingue as pessoas que mais tarde demonstram o melhor desempenho. (Algumas pessoas até gostam de definir ‘talento’ como a rapidez com que você aprende.)
Uma ressalva é que a rapidez com que você aprende depende muito do contexto e do ensino. Então tenha cuidado, por exemplo, ao concluir que a matemática não é um ponto forte seu, só porque você não teve bons professores.
Quando você tiver identificado esses pontos de destaque, você pode começar a tentar identificar certas regularidades entre eles. As perguntas da Etapa 2 o ajudarão com isso.
Se houver tempo, peça mais feedback
Muitas vezes não percebemos nossas qualidades porque aquilo que fazemos bem nos parece fácil e natural, enquanto os nossos pontos fracos criam dores de cabeça.
E embora as pessoas tenham uma autoconfiança exagerada em muitos casos, elas tendem a subestimar suas habilidades comparadas a outras pessoas quando se trata de habilidades difíceis — como as que estamos discutindo aqui.
Por isso, é particularmente útil perguntar a outras pessoas sobre nossas qualidades. (E, em geral, eu diria que obter mais feedback é geralmente o melhor caminho para o autoconhecimento — leia mais sobre isso no livro Insight, escrito por Tasha Eurich.)
Pode ser que você já tenha passado por avaliações no trabalho, e, portanto, é possível que você já tenha bastante feedback a considerar. Existe algum padrão nesse feedback que se repete e que poderiam sugerir uma qualidade?
Se você nunca recebeu feedback diretamente sobre suas qualidades — o que não é incomum — então, você poderia considerar a possibilidade de mandar um e-mail para alguns amigos e ex-colegas pedindo a opinião deles.
Isso pode ser um pouco desconfortável, mas muitas pessoas gostam de fazer comentários positivos sobre alguém, e isso pode ser a coisa mais rápida e útil que você pode fazer para aprender mais sobre suas qualidades.
Estas são algumas perguntas para você considerar (as quais adaptamos do Conscious Leadership Group 📄 ):
- O que estou fazendo ou dizendo quando lhe pareço mais feliz e com mais energia?
- Quando pareço estar no meu melhor momento, a coisa exata que estou fazendo é __________.
- Quais são suas três qualidades favoritas que você vê em mim? (Tente usar uma palavra por qualidade.)
Há temas que aparecem mais de uma vez? Fazer essas perguntas a apenas algumas pessoas normalmente esclarece (e motiva), mas se você perguntar a dez pessoas ou mais, será mais fácil identificar temas que se repetem.
2. Reflita sobre essas perguntas e exercícios
Reuni algumas das melhores perguntas que encontrei para ajudar as pessoas a entenderem melhor as suas qualidades. Agora que você já organizou seus pensamentos sobre a sua experiência, você pode usá-los para ir além das qualidades que são mais óbvias inicialmente e defini-las com mais precisão.
O que não parece trabalho (mas é)?
Se fosse para você refletir sobre uma pergunta apenas, eu escolheria esta, sugerida por Paul Graham. Identifique tarefas que você acha naturalmente envolventes, empolgantes, que lhe dão energia, mas que normalmente não são percebidas por outras pessoas dessa maneira.
Ele nos dá o exemplo (bastante extremo) de seu pai:
Numa outra conversa ele me disse que o que ele gostava realmente de fazer era resolver problemas. Para mim, os exercícios no final de cada capítulo de um livro de matemática significam trabalho, ou no máximo uma maneira de reforçar o que aprendi naquele capítulo. Para ele, os problemas eram uma recompensa. O texto de cada capítulo era apenas orientações sobre como resolvê-los. Ele disse que assim que ele recebia um novo livro ele começava imediatamente a resolver todos os problemas — o que incomodava um pouco o professor, já que o plano era que os alunos iriam completar os capítulos gradualmente.
Esta pergunta ajuda você a identificar coisas que você provavelmente faz bem, provavelmente irá fazer por muito tempo e que são incomuns — todos elementos essenciais das qualidades.
Elas podem ser difíceis de identificar, já que você convive provavelmente com pessoas parecidas com você, então você pode não perceber que é incomum gostar do que você gosta. Tente, em vez disso, comparar-se com um grupo mais abrangente (por exemplo, os alunos que se formaram com você no ensino médio).
O que lhe dá mais energia? (‘A auditoria da energia’)
Um exercício relacionado que eu e outras pessoas que trabalham na 80.000 Horas achamos útil é a ‘auditoria da energia’ 📄:
- Dê uma olhada nas últimas duas semanas do seu calendário
- Classifique as atividades que lhe dão energia e as que lhe tiram energia
- O que há em comum entre as tarefas que lhe dão energia?
Este é um bom exercício porque é minucioso e concreto. Em vez de tentar achar o que deixa você super empolgado, este exercício envolve encontrar tarefas específicas que definitivamente são relevantes ao seu trabalho e não interesses mais amplos.
Além de identificar suas qualidades, você pode usar este exercício para melhorar sua função atual:
- Como seria possível você fazer mais tarefas que lhe dão energia e menos tarefas que lhe tiram energia?
Identifique pontos comuns com base em muitas categorias
Dê uma olhada nos pontos de destaque em seu histórico de trabalho. Classifique-os não só em termos de funções, mas também pergunte:
- Que tarefas específicas foram as melhores? (por exemplo, escrever, reuniões, criar planilhas)
- Que contextos foram os melhores? (por exemplo, quantos membros na equipe, que tipo de ambiente de trabalho)
- Com que tipos de pessoas você estava trabalhando? (por exemplo, extrovertidas, ambiciosas)
- Que tipo de cultura? (por exemplo, muita pressão, bastante feedback, independente, etc.)
Além disso, as qualidades não precisam ser habilidades. Pense de uma maneira mais abrangente e pergunte:
Qual é o meu capital de carreira mais útil?
- Quais são os meus relacionamentos mais importantes?
- Laços fortes (amigos, colaboradores, mentores)
- Laços fracos (a que comunidades e campos você está ligado por intermédio de conhecidos?)
- O que mais contribui à minha reputação?
- Escolaridade
- Seus empregos anteriores e indicadores de desempenho
- Coisas que você criou (website, software, etc.)
- Prêmios
- Outras realizações que impressionam
- A que recursos você tem acesso?
- Capacidade de folga pessoal
- Influência em uma organização
- Capital
- Tecnologia
- Plataforma pública (por exemplo, reputação em sua indústria, blog)
Onde você se sente mais determinado?
O sucesso em praticamente qualquer carreira requer anos de muito trabalho, e muitas vezes décadas.
Isto é fácil de subestimar: Nos nossos anos de escola, enfrentamos desafios em que podemos nos sair bem (por exemplo, passar na prova) em menos de um ano. O mundo do trabalho é muito diferente — você pode, facilmente, trabalhar muito por cinco anos e ainda se encontrar nos níveis mais baixos da sua área.
Isto significa que é particularmente útil perguntar-se algo assim: em que posso me imaginar trabalhando por 5 anos ou mais, mesmo se eu não tiver muito sucesso?
O que pode ser uma vantagem de acréscimo?
Outra maneira de focar no longo prazo é focar nas qualidades que podem se agregar — crescer constantemente todo ano. Até quantidades modestas de crescimento podem se acumular e formar um aumento enorme ao longo de 20 anos.
Este é principalmente o caso em áreas onde há ciclos de feedback positivo – ou seja, onde o sucesso inicial conduz a mais sucesso. (Isto se chama o efeito de Matthew.)
Isso favorece focar em qualidades onde há um “teto alto”. Veja a lista de qualidades com tetos altos aqui.
Isso também pode favorecer um enfoque em qualidades que podem crescer de tal maneira que é difícil copiar rapidamente. Isso poderia significar continuar desenvolvendo uma habilidade incomum ou vantagem inicial, focar em algo que tenha efeitos de rede (por exemplo, seus contatos) ou outro capital de carreira difícil de reproduzir, como ter uma boa reputação.
Que combinações incomuns você pode fazer?
Além de pensar em qualidades isoladamente, pense também em como suas qualidades podem ser combinadas para criar combinações particularmente úteis.
Uma regra geral útil é tentar combinar 2-3 qualidades que normalmente não se combinam. É muito mais fácil se tornar uma das pessoas mais importantes do mundo com a intersecção de 2-3 habilidades incomuns do que uma das pessoas mais importantes em qualquer uma dessas habilidades.
Este é um conselho comum atribuído a Scott Adams, o criador dos quadrinhos Dilbert:
No meu caso, desenho melhor do que a maioria das pessoas, mas mal posso dizer que sou artista. E não sou mais engraçado do que o comediante de stand-up médio que nunca faz muito sucesso, mas sou mais engraçado do que a maioria das pessoas. A mágica é que poucas pessoas conseguem desenhar bem e criar uma história engraçada. É a combinação dos dois que torna o que faço tão raro. E quando você adiciona minha experiência com o mundo dos negócios, de repente tive nas mãos um assunto que poucos cartunistas poderiam tentar entender sem ter vivenciado.
Adams não explica por que essa estratégia funciona. Se combinar habilidades fosse um modo fácil de se tornar mais bem-sucedido, então qualquer um faria. Acho que a explicação é que as pessoas tendem a se restringir aos caminhos conhecidos, mas fazer combinações incomuns requer uma dose de pensamento estratégico e independente, e por isso as intersecções são negligenciadas. Mas se você está lendo este post, então tem provavelmente a habilidade de fazer isso.
Alguns de nossos caminhos prioritários são construídos em torno de combinações incomuns — por exemplo, não é muita gente que entende dos mais recentes avanços do aprendizado de máquinas e como as políticas governamentais funcionam, tornando as políticas de IA um plano de carreira particularmente promissor.
3. Avalie estas listas de qualidades pessoais
Se você ainda não identificou suas qualidades com base no que discutimos acima, aqui vai uma lista de qualidades em várias categorias: habilidades de trabalho, personalidade, aptidões, traços de caráter e interesses de trabalho. (Note haver itens comuns nessas listas. O objetivo é te dar muitas ideias, não uma classificação de itens mutuamente exclusivos.)
Você pode dar uma olhada para identificar qualidades que podem ter lhe escapado e também para desenvolver uma linguagem que lhe permita descrever as qualidades que você descobriu acima.
Usei características, sempre que disponíveis, baseadas em pesquisas e as mais usadas na psicologia. Mas tenha em mente que a maior parte dessas características tem um poder de previsão fraco quando se trata do desempenho no trabalho, então definitivamente não pense nos resultados em termos de como eles ‘determinam’ a área em que você deve trabalhar. Mesmo assim, acho que eles são úteis porque (i) houve bastante cuidado na formulação dessas características para que elas possam servir como um vocabulário e (ii) um poder de previsão fraco ainda é útil — contanto que você não atribua peso demais aos preditores.
Habilidades de trabalho
As habilidades de trabalho são mais mutáveis do que aquilo que mais naturalmente poderíamos considerar qualidades, mas elas são obviamente uma maneira relevante de categorizar suas habilidades, se você estiver planejando sua carreira.
Esta é uma lista de habilidades usada pelo US Bureau of Labor Statistics (Escritório de Estatística do Trabalho dos Estados Unidos) para classificar as qualidades necessárias a centenas dos empregos mais comuns.
Habilidades Básicas
- Aprendizado Ativo: Compreender as consequências de novas informações para a solução de problemas e tomada de decisões atuais e no futuro
- Escuta Ativa: Prestar atenção total ao que as outras pessoas estão dizendo, ouvir sem pressa para entender o que está sendo expresso, perguntar conforme for apropriado e não interromper em horas impróprias
- Pensamento Crítico: Usar a lógica e o raciocínio para identificar as vantagens e desvantagens de soluções alternativas, conclusões e abordagens a problemas
- Estratégias de Aprendizagem: Selecionar e usar métodos de instrução/treinamento adequados à situação ao aprender ou ensinar algo novo
- Matemática: Usar a matemática para resolver problemas
- Monitoria: Monitorar/Avaliar o seu desempenho e o de outros indivíduos ou organizações para realizar melhorias ou ação corretiva
- Compreensão de Leitura: Entender orações e parágrafos por escrito em documentos relativos ao trabalho
- Ciência: Usar regras e métodos científicos para resolver problemas
- Oratória: Falar com os outros para transmitir informações de maneira eficaz
- Escrita: Comunicar-se eficazmente por escrito conforme adequado às necessidades dos leitores
Habilidades Sociais
- Coordenação: Ajustar suas ações em relação às dos outros
- Instrução: Ensinar outros a fazer algo
- Negociação: Unir os outros e tentar conciliar diferenças
- Persuasão: Persuadir os outros a mudar de ideia ou comportamento
- Orientação ao Serviço: Procurar ativamente maneiras de ajudar as pessoas
- Percepção Social: Estar consciente das reações dos outros e entender porque eles reagem assim
Habilidades de Resolução de Problemas Complexos
- Resolução de Problemas Complexos: Identificar problemas complexos e avaliar informações pertinentes à elaboração e avaliação de opções e implementar soluções
Habilidades Técnicas
- Manutenção de Equipamentos: Efetuar a manutenção rotineira de equipamentos e determinar quando e que tipo de manutenção é necessária
- Seleção de Equipamentos: Determinar o tipo de ferramentas e equipamentos necessários à realização de um trabalho
- Instalação: Instalar equipamentos, máquinas, fiação, ou programas para satisfazer às especificações
- Operações e Controle: Controlar operações de equipamentos ou sistemas
- Monitoria de Operações: Observar medidores, mostradores, e outros indicadores para se assegurar que uma máquina está funcionando corretamente
- Análise de Operações: Analisar as necessidades e requisitos de produtos para criar um design
- Programação: Escrever programas de computador para várias finalidades
- Análise de Controle de Qualidade: Realizar testes e inspeções de produtos, serviços, ou processos para avaliar a qualidade ou o desempenho
- Reparos: Fazer reparos em máquinas ou sistemas usando as ferramentas necessárias
- Design Tecnológico: Criar ou adaptar equipamentos e tecnologia para servir às necessidades do usuário
- Solução de Problemas: Determinar as causas de erros operacionais e decidir o que fazer a respeito
Habilidades de Sistemas
- Discernimento e Tomada de Decisão: Considerar os custos e benefícios relativos de ações potenciais para escolher a mais adequada
- Análise de Sistemas: Determinar como um sistema deve operar e como mudanças nas condições, operações, e no ambiente afetarão os resultados
- Avaliação de Sistemas: Identificar as medidas ou indicadores do desempenho do sistema necessários à melhoria ou correção do desempenho, com relação aos objetivos do sistema
Habilidades de Gestão de Recursos
- Gestão de Recursos Financeiros: Determinar como as verbas serão usadas para a realização do trabalho, e contabilidade dessas despesas
- Gestão de Recursos Materiais: Obter e supervisionar o uso adequado de equipamentos, instalações, e materiais necessários para a realização de determinado trabalho
- Gestão de Recursos de Pessoal: Motivar, ajudar a desenvolver, e fornecer direção a pessoas conforme elas trabalham; identificar as melhores pessoas para o trabalho
- Gestão de Tempo: Gerenciar seu próprio tempo e o dos outros
Talvez você se interesse em ler nossa análise geral de quais entre estes mais se correlacionam com a empregabilidade.
Esta é uma lista de habilidades que achamos úteis dentro da comunidade do altruísmo eficaz ao discutir possíveis obstáculos ao progresso sobre os problemas mais urgentes. Você pode ver os resultados de um levantamento de 2019 sobre quais delas são as mais valiosas.
Lista de habilidades de trabalho úteis ao altruísmo eficaz:
- Gestão geral (supervisionar a logística, finanças, e operações diárias)
- Gestão de projeto/produto (mantendo-se dentro dos prazos, priorizando certos trabalhos)
- Gestão de pessoas (mentoria, treinamento de funcionários em escalões mais baixos)
- Operações
- Assistência administrativa/executiva
- Marketing e divulgação digital (inclusive marketing de conteúdo)
- Criação de movimentos populares e organização de grupos
- Amplo envolvimento com o público/a mídia (falar em público, entrevistas na televisão, livros, etc.)
- Estratégia de mídia (ligações com a mídia, fornecer conselhos específicos sobre o AE para a mídia, preparar pessoas para representarem as causas do AE na mídia)
- Habilidades de diversidade, igualdade, e inclusão (construir rampas de acesso para o AE e apoio dentro do AE para pessoas de grupos sub-representados alinhadas e de talento)
- Tradução (traduzir corretamente os conceitos do AE em idiomas que não o inglês)
- Habilidades relacionadas ao empreendimento/fundação de novas organizações
- Desenvolvimento estratégico e priorização de atividades organizacionais
- Pesquisa generalista (ser capaz de pesquisar uma questão como por exemplo “Esta intervenção funciona?” quando você não é especialista nessa área, ou como o que um jornalista de investigação faria)
- Formação em filosofia
- Experiência com governo e políticas
- Conhecimento técnico/sobre aprendizado de máquinas
- Conhecimento sobre a economia e outras ciências sociais quantitativas
- Conhecimento sobre as ciências da vida (biologia sintética, imunologia)
- Conhecimento quantitativo além da economia e aprendizado de máquinas (matemática, ciência de dados)
- Desenvolvimento de software
- Habilidade de prognosticar no estilo de Tetlock
- Alto nível de entusiasmo e conhecimento sobre o altruísmo eficaz
Traços de personalidade
O método de classificar personalidades mais usado na área de pesquisa é o Big Five (não Myers Briggs!), que é baseado em uma análise de agrupamento de palavras, usadas para descrever a personalidade.
Ele divide a personalidade nos cinco fatores seguintes, que por sua vez podem ser divididos em subfatores. (Embora na direção oposta, é engraçado que alguns psicólogos tenham proposto que, já que os fatores estão parcialmente correlacionados, você pode combiná-los num único fator de ‘boa’ personalidade.)
- Extroversão vs. introversão, que se decompõe em entusiasmo e assertividade
- Conscienciosidade, que se decompõe em diligência (isto é, trabalhar bastante) e ordem (seguir as regras, ser organizado)
- Agradabilidade, que se decompõe em compaixão e gentileza
- Estabilidade emocional vs. neuroticismo
- Abertura a experiências e ideias
Há uma correlação fraca entre esses traços e alguns aspectos do desempenho no trabalho (por exemplo, abertura e criatividade, agradabilidade e trabalho em equipe, desagradabilidade e liderança, conscienciosidade e estabilidade e trabalhar bastante, etc.)
Às vezes, uma sexta dimensão é acrescentada para representar a integridade e honestidade (que também parece ser útil para a previsão do desempenho no trabalho).
Note que muitos outros traços bem conhecidos normalmente se correlacionam muito com os Big Five, e é uma questão de debate se eles são novos construtos ou uma combinação de personalidade e habilidades aprendidas. Estas são outras maneiras de se classificar a personalidade, com alguns comentários gerais sobre as que coincidem.
Lista de outras qualidades que são traços de personalidade:
- Garra, da acadêmica Angela Duckworth, coincide bastante com a diligência, embora em teoria aquela esteja mais focada na persistência a longo prazo.
- Inteligência emotional coincide bastante com a estabilidade emocional, extroversão e inteligência geral.
- Auto-compaixão — a agradabilidade inclui a compaixão como subfator, mas parece provável que pessoas igualmente compassivas diferem em sua habilidade de ter compaixão consigo mesmas.
- Auto-eficácia é o seu grau de confiança em suas habilidades. A minha expectativa seria de que ela coincidiria com a estabilidade emocional mas que ela dependeria também de suas experiências anteriores e habilidades efetivas.
- Altruísmo – a compaixão é um subfator da agradabilidade, mas esse subfator parece mais focado em ajudar as pessoas imediatamente ao seu redor e não o mundo em geral.
- Carisma – talvez uma combinação de extroversão, inteligência, e habilidades sociais aprendidas.
- Ambição – coincide com a diligência, embora com um enfoque maior em ter metas altas.
- Otimismo
Você pode fazer o teste de personalidade Big Five aqui, mas se você quiser resultados mais interessantes (e provavelmente com maior poder de previsão), peça que um amigo faça o teste como se fosse você.
Habilidades cognitivas
Nesta categoria, os psicólogos mais frequentemente focam na habilidade mental geral, embora muitos também acreditem que ela pode ser dividida em subfatores. Por exemplo, um estudo que examinamos concluiu que a inteligência pode ser dividida em verbal, quantitativa, e espacial, e que estas previram diferencialmente o desempenho entre jovens dotados em disciplinas acadêmicas diferentes.
As pesquisas têm concluído que várias medidas de ‘bom discernimento’ não se correlacionam tão fortemente assim com a inteligência geral. Minha expectativa é que algo como o ‘pensamento independente’ é parecido.
A criatividade é frequentemente considerada uma habilidade distinta da inteligência, uma vez que ela também envolve a habilidade de pensar de forma divergente, enquanto que a inteligência tem mais a ver com a rapidez de processamento.
Já me indaguei muitas vezes se algo como a ‘habilidade de interpretar as emoções dos outros’ poderia ser um traço bastante arraigado, e não simplesmente se correlacionar com a inteligência e os Big Five.
Então, para resumir, algumas habilidades cognitivas poderiam incluir:
- Inteligência (dividindo-se em verbal, quantitativa, e espacial)
- Discernimento
- Creatividade
- Talvez alguns aspectos subjacentes das habilidades sociais
Se você pretende fazer um teste de QI, cuidado.
Traços físicos
Estes podem ser importantes em certos empregos — por exemplo, ser hábil com as mãos é um requisito para os cirurgiões, ser alto é um requisito para os jogadores de basquete, e ter boa aparência é útil para os apresentadores de TV. Você poderia também considerar níveis de energia como um traço físico, mas isso já está incluído no Big Five na categoria extroversão.
Qualidades típicas e o caráter
As qualidades típicas foram desenvolvidas pelos pesquisadores da psicologia positiva Martin Seligman e Christopher Peterson, que identificaram as virtudes de caráter mais comuns em sistemas éticos tradicionais ao redor do mundo.
Esta é a lista de qualidades (24 qualidades classificadas em seis categorias):
- Sabedoria e Conhecimento: Criatividade, curiosidade, discernimento, amor por aprender, perspectiva
- Coragem: Bravura, perseverança, honestidade, entusiasmo
- Humanidade: Amor, bondade, inteligência social
- Justiça: Trabalho em equipe, equidade, liderança
- Moderação: Perdão, humildade, prudência, auto-regulação
- Transcendência: Apreciação da beleza e da excelência, gratidão, esperança, humor, espiritualidade
Considero os itens acima traços de caráter, e assim são uma combinação entre personalidade e comportamentos aprendidos.
Você pode fazer um teste de avaliação oficial gratuito no website do VIA.
Há dados empíricos que indicam que encontrar maneiras de aplicar suas qualidades típicas em seu emprego atual aumenta a satisfação no emprego, o que é bastante intuitivo. Estes são três exercícios concretos:
- No início de cada dia, pense em uma nova maneira de usar uma das suas qualidades típicas naquele dia.
- No final de cada dia, tome nota de quais qualidades você usou naquele dia.
- Tente recriar a descrição do seu emprego para que você possa usar mais as suas qualidades. Veja 340 maneiras de usar suas qualidades típicas 📄.
Porém, o simples ‘encaixe entre emprego e qualidades’ parece não se correlacionar com o desempenho, isto é, se você tem um alto grau de inteligência social, isso não quer dizer que você vai ter um desempenho melhor em um emprego em que as pessoas têm um alto grau de inteligência social.
Isto provavelmente não significa que as suas qualidades típicas não sejam relevantes. Primeiro, as pessoas já se auto-selecionaram nessas dimensões, o que reduzirá as correlações observadas. Segundo, as qualidades provavelmente são relevantes, mas de uma maneira mais complexa do que um simples grau de encaixe. Os pesquisadores na verdade concluíram:
Se um funcionário numa determinada ocupação obteve uma pontuação mais alta em uma qualidade de caráter menos típica dentro dessa ocupação, então ele ou ela mais provavelmente estaria mais satisfeito com seu trabalho. Talvez esse indivíduo utilize qualidades que são particularmente necessárias ao trabalho. Ou talvez esse indivíduo se ache diferente de seus colegas.
Isto sugere que ter conhecimento de suas qualidades pode ser útil em prever seu desempenho, mesmo se uma combinação simples não for suficiente.
Temos um artigo com mais detalhes sobre as qualidades típicas e como elas se comparam (favoravelmente) ao Gallup Strengths Finder (Localizador de Qualidades Gallup).
Interesses de trabalho
Os psicólogos organizacionais empreenderam-se bastante para encontrar maneiras de classificar ‘interesses de trabalho,’ principalmente os ‘tipos Holland.’ Estes são uma combinação de personalidade, caráter, e outras inclinações — escolhida para ser particularmente relevante ao trabalho e para classificar pessoas com base em sua preferência em trabalhar com ideias, pessoas, ou coisas.
Infelizmente, a maioria dos estudos mostra que o encaixe dos tipos Holland prevê apenas ligeiramente o desempenho no trabalho (tipicamente r de 0,1-0,3), embora talvez seja melhor do que zero, e com poder semelhante aos traços de personalidade acima. Assim como as qualidades, eles provavelmente são relevantes, mas de maneiras mais complexas do que um simples encaixe (por exemplo, em alguns casos o encaixe entre o tipo Holland de uma pessoa e o de outras no trabalho na verdade é negativo).
Este é um resumo de cada tipo extraído da wikipedia, onde você também pode ver exemplos de empregos de cada um:
- Tipo realistas “que fazem”: Pessoas que gostam de trabalhar com coisas. Tendem a ser assertivas e competitivas e têm interesse em atividades que requerem coordenação motora, habilidade, e força.
- Tipo “pensadores” investigativos: Pessoas que preferem trabalhar com dados. Gostam de pensar e observar em vez de agir; organizar e compreender informações em vez de persuadir.
- Tipo “criadores” artísticos: Pessoas que gostam de trabalhar com ideias e coisas. Tendem a ser criativas, abertas, inventivas, originais, perceptivas, sensíveis, independentes e emotivas.
- Tipo “ajudantes” sociais: Pessoas que gostam de trabalhar com pessoas e que parecem satisfazer suas necessidades em situações de ensino e auxílio.
- Tipo “persuasores” empreendedores: Pessoas que gostam de trabalhar com pessoas e dados. Tendem a falar bem e usar essa habilidade para liderar e persuadir outras pessoas.
- Tipo “organizadores” convencionais: Pessoas que preferem trabalhar com dados e que gostam de regras e regulamentações e enfatizam o autocontrole.
O governo dos Estados Unidos tem uma versão gratuita do teste, e também classificou centenas de empregos por tipo. No website O*Net você pode inserir o seu tipo principal e o segundo e terceiro tipos mais importantes, e criar uma lista de empregos com base nessa combinação. Você então pode filtrá-los por ‘zona de emprego,’ que é essencialmente quão difícil é preencher todos os requisitos (‘5’ é o mais difícil).
Estudo de caso: eu
Acho que em parte sou um exemplo dos riscos de focar nas qualidades. Eu não teria pensado em consultoria sobre carreiras, divulgação pública, ou gestão como qualidades, antes de lançar 80.000 Horas, apesar de ter acabado fazendo muito de cada um. Se tivessem me pedido para focar em minhas qualidades no início da minha carreira, imagino que teria descartado a possibilidade da maior parte do que acabei fazendo, o que, eu acho, teria sido um erro.
No entanto, acho que pensar em qualidades foi mais útil em fases posteriores da minha carreira. O que vem a seguir é um pouco indulgente, mas espero que você ache útil ver um exemplo real de uma pessoa usando essas etapas.
Uns anos atrás (mais ou menos seis anos depois de começar a trabalhar na 80.000 Horas), percebi que estava um pouco menos satisfeito em minha função do que anteriormente.
A princípio, eu não sabia bem o que fazer a respeito, mas uma maneira de lidar com isso foi tentar ver com mais clareza como eu gostaria que fosse a minha função a longo prazo, para que eu pudesse criar uma visão motivadora a seguir.
Uma opção em que pensei foi se deveria focar mais em ‘pessoas’ ou em ‘ideias’ em minha função e mais além. Para tal, fiz vários dos exercícios acima durante o espaço de um ano ou dois e os discuti com alguns consultores.
Depois de uma auditoria de energia, uma conclusão clara foi que o trabalho que eu achava mais envolvente e motivante (embora difícil) era escrever para o website. Também descobri que minhas qualidades típicas, na maior parte, envolviam as ideias, e no Big Five, me inclino ao tipo introvertido e com alto grau de abertura.
Contudo, percebi que algumas reuniões me davam energia também, principalmente as que envolvem pesquisa, o desenvolvimento de estratégias, ou a aplicação da estratégia na prática. Então, percebi que embora eu me incline para o lado das ‘ideias,’ eu também não queria uma função que tivesse a ver puramente com as ideias — eu queria que minha função também envolvesse algumas reuniões e coisas que eu pudesse realizar na vida prática.
Procurei situações em que achei que mais tinha contribuído em minha função e procurei temas comuns em nossas rodadas anuais de avaliação. Em parte, isso reforçou o quadro acima, mas também o tornou menos nítido. Por exemplo, acho que formar uma equipe em torno da ideia de 80.000 Horas poderia, no fim, conduzir a um impacto maior do que minha escrita anterior, mas é difícil dizer ao certo.
Em terceiro lugar, tentei pensar em quais das minhas habilidades são as mais incomuns comparadas a de outros membros da equipe (em relação ao que parecia ser de mais valor). Isso também pareceu ser uma confirmação de certos tipos de escrita, uma vez que achei que havia alguns artigos que eu poderia escrever e que ninguém mais poderia, alguns dos quais eram altas prioridades para o website. Em contraste, minha impressão era que uma porção maior das contratações e gestão poderia ser feita por outra pessoa e talvez de forma melhor.
Tive dúvidas e preocupações sobre essa decisão, mas resolvi experimentar durante o último ano com um enfoque maior na escrita e estratégia e menor na gestão e administração da organização, o que deixei mais a cargo de outros membros da equipe. Essa experiência também foi um lembrete de que para mim a escrita é mais motivadora do que a pesquisa exclusivamente interna (talvez eu não devesse ter espiado os tipos de Holland antes – eu só fiz o teste, que me disse que a minha pontuação foi mais alta no tipo ‘persuasivo’ do que ‘investigativo’).
Por enquanto, eu diria que foi um sucesso para a minha felicidade e motivação. Em termos de impacto, é difícil dizer. Mas acho que a felicidade e a motivação são indicadores bem significativos do impacto a longo prazo (uma vez que você está focado numa solução promissora a um problema urgente), e fazer mudanças na minha função nos permitiu começar a melhorar nosso conteúdo (após um ano devagar em 2019) — então, estou otimista.
Agradeço a Arden Koehler, Michelle Hutchinson, Sofia Fogel, e Peter McIntyre por seus comentários sobre este artigo.
Aplique esta ideia
Se você tiver alguma dúvida, me pergunte aqui no Twitter.
Agora que você tem uma ideia mais clara de suas qualidades:
- Qual é uma maneira que você poderia usá-las mais a cada dia no seu emprego atual?
- Use parte do nosso processo de planejamento para planos a longo prazo para pensar em quais são os mais promissores para você e quais poderiam se encaixar melhor com suas qualidades.
- Veja algumas ideias de como aplicar qualidades diferentes aos problemas mais urgentes do mundo.
Leitura suplementar
Peak (Pico), de Anders Ericsson, apresenta o argumento de que o sucesso é impulsionado principalmente por anos de prática. Penso que suas conclusões são extremas demais, mas é um livro provocante e a ideia central – que atingir altos níveis de desempenho requer muita prática e que é possível melhorar a maioria de suas habilidades – parece correta. Veja também este bom resumo da carreira de Ericsson, escrito por Cal Newport.
15 Commitments of Conscious Leadership (15 Compromissos da Liderança Consciente) visa descrever em detalhe uma visão de trabalho que é produtiva mas também prazerosa, gratificante e bem equilibrada — ao mesmo tempo que coloca grande ênfase no uso de nossas qualidades. É baseada num programa de treinamento em liderança bastante usado no Vale do Silício. Embora às vezes ele se desvie bastante na direção da autoajuda tipo Nova Era (e não concordo com suas afirmações), este livro é útil a quem estiver questionando sua abordagem ao trabalho. Ele também reúne muitas ideias atuais sobre liderança, gestão e desempenho em um só volume.