Sumário

Competências políticas

Por Benjamin Hilton,  Benjamin Todd e  a equipe da 80.000 Hours ·
Última atualização em dezembro de 2023·
Publicado em inglês pela primeira vez em setembro de 2023

Traduzido, editado e adaptado pela equipe do Carreiras Eficazes, de modo a atender as necessidades das comunidades lusófonas com autorização dos produtores do texto original.

Suzy Deuster queria ser defensora pública, uma carreira que poderia ajudar centenas de pessoas a receberem uma representação legal justa. Mas ela percebeu que, ao mudar seu foco para o trabalho governamental, ela poderia melhorar o sistema de justiça para milhares, ou até milhões de pessoas. Suzy acabou fazendo exatamente isso, ao assumir um cargo no Gabinete Executivo do Presidente dos EUA, trabalhando na reforma da justiça criminal.

Essa lógica não se aplica apenas à justiça criminal. Se você se interessa por alguma questão global, empregos em instituições de poder, como no governo, podem lhe oferecer oportunidades únicas e de alta alavancagem para lidar com alguns dos desafios mais urgentes de nossos tempos.

Em resumo: Governos e outras instituições de poder frequentemente cumprem um papel crucial no debate sobre os problemas globais urgentes, então aprender a integrar, melhorar e auxiliar essas instituições é uma maneira de causar um grande impacto. Além disso, muitos empregos proporcionam uma boa rede de contatos e um alto potencial de impacto em termos de competitividade.

Fatores de compatibilidade

Este conjunto de competências é bastante amplo, podendo atender a várias pessoas. Para muitos cargos, ser sociável e sentir-se confortável em um ambiente político podem ser indicativos de um perfil compatível – mas isso não vale para todos os cargos e, mesmo se você achar que não se enquadra, ainda assim pode tentar algo na área.

Por que as competências políticas são valiosas?

Poderíamos argumentar que:

Em conjunto, isso sugere que, ao desenvolver as competências necessárias para fazer as coisas acontecerem em grandes instituições, você poderá ter muitas oportunidades de causar impacto.

Em seguida, veremos:

Governos (e outras instituições poderosas), em geral, têm um enorme impacto no mundo.

Os governos nacionais são extremamente poderosos.

Para começar, eles controlam a alocação de enormes somas de dinheiro. O orçamento federal do governo dos EUA gira em torno de US$ 6,4 trilhões/ano – isso equivale, aproximadamente, à receita anual das 14 maiores empresas do mundo em receita (embora apenas cerca de US$ 1,7 trilhão/ano seja gasto discricionário). Muitos outros países ocidentais gastam centenas de bilhões de dólares por ano.

E não é apenas o dinheiro. Os governos produzem leis que regulam as ações de milhões – ou bilhões – de pessoas e possuem ferramentas exclusivas à sua disposição, incluindo tributação e isenções fiscais, regulamentação, ações antitruste e, em última instância, o uso da força.

Os EUA gastam quase um trilhão de dólares por ano em seu orçamento militar (embora este seja um caso atípico – em outros países ocidentais, seria algo em torno de dez bilhões).

Por que essa escala é importante?

Bem, vamos argumentar que as suas chances de assumir um cargo governamental no qual você exercerá uma grande influência provavelmente sejam altas o suficiente para que você possa ter a expectativa de gerar um impacto significativo, dada a enorme escala da ação governamental.

E não são apenas os governos. A maioria dos conselhos deste artigo serve para qualquer instituição de poder, como um órgão internacional ou uma organização como as Nações Unidas. Muito do que dizemos aqui, também se aplica a empregos em grandes corporações.

Governos e outras grandes instituições desempenham um papel fundamental no debate sobre os problemas mais urgentes do mundo

Governos nacionais e organismos internacionais – em particular os EUA, Reino Unido e UE – já estão trabalhando em alguns dos problemas que identificamos como os mais urgentes. Por exemplo:

  • Biorrisco: O governo do Reino Unido lançou a Estratégia de Segurança Biológica do Reino Unido, com o objetivo de prevenir futuras pandemias, em junho de 2023. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (Centers for Disease Control and Prevention, CDC) dos EUA dedicam-se à saúde pública do país e são uma das organizações mais importantes no controle global de doenças. A comunidade de defesa e inteligência dos EUA também trabalha nessa área. Por exemplo, o Departamento de Defesa realiza muitos trabalhos sobre doenças infecciosas e auxilia os esforços de outros países para evitar a proliferação de armas biológicas.
  • Segurança de IA e políticas públicas: Em seu Discurso sobre o Estado da União (State of the Union Address) anual, a Presidente da Comissão Europeia disse ao Parlamento Europeu que a UE deveria estar trabalhando para mitigar o risco de extinção por IA. O Escritório da Casa Branca emitiu uma ordem executiva sobre IA, que requer – entre outras coisas – que os desenvolvedores dos sistemas de IA mais importantes desenvolvam padrões de segurança e testes e compartilhem esses resultados com o governo dos EUA. A Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (Defense Advanced Research Projects Agency, DARPA) tem um programa sobre IA explicável, que é um componente da pesquisa de segurança de IA. O governo do Reino Unido criou o Instituto de Segurança de IA (AI Safety Institute). E, à medida que a IA se torna mais importante, os governos provavelmente irão se envolver mais com o assunto.
  • Segurança nuclear: Os EUA têm o exército mais poderoso do mundo e o segundo maior estoque de armas nucleares. Agências federais como o Departamento de Defesa, o Departamento de Energia e o Departamento de Estado são importantes para prevenir uma catástrofe nuclear.

Os governos também desempenham um papel fundamental em praticamente todos os outros problemas globais que você possa imaginar (incluindo basicamente todos os problemas sobre os quais já escrevemos, como saúde global, mudanças climáticas e agricultura industrial).

Ao longo deste artigo, nos concentramos nos EUA porque acreditamos que esse país tem uma influência especial em áreas relacionadas aos problemas que consideramos mais urgentes, e porque é onde temos mais leitores. No entanto, acreditamos que essas competências também sejam valiosas para quem mora em outros países (e temos conselhos específicos sobre o Reino Unido).

Além dos governos, também existem organizações internacionais e grandes empresas que são importantes na resolução de certos problemas. Por exemplo, a Convenção sobre Armas Biológicas (Biological Weapons Convention) desempenha um papel excepcional na prevenção de catástrofes biológicas, enquanto os principais laboratórios de IA e grandes empresas de tecnologia têm uma influência crucial sobre o desenvolvimento da IA.

Para ver listas de instituições relevantes para vários problemas, consulte nossos perfis de problemas e quadro de empregos.

Você pode fazer mudanças

Você pode pensar que, mesmo trabalhando em uma instituição importante, não terá muito impacto porque não será capaz de mudar nada. Você terá que seguir a vontade de funcionários eleitos, que estão vinculados ao eleitorado, restrições institucionais e interesses específicos. Embora isso seja verdade em muitos casos, acreditamos que existam oportunidades para se obter pelo menos um pequeno efeito nas ações dessas instituições grandes e poderosas.

Frances Kelsey era acadêmica e farmacologista. Mas, em 1960, ela deu um grande passo em sua carreira quando foi contratada pela FDA. Apenas um mês após iniciar seu novo trabalho no governo, ela recebeu sua primeira tarefa, que foi revisar um medicamento: a talidomida. Apesar da pressão considerável do fabricante do medicamento, Kelsey insistiu que ele fosse testado mais rigorosamente.

E assim, enquanto mais de 10.000 crianças em todo o mundo nasceram com defeitos congênitos como resultado da talidomida – passando suas vidas com membros deformados e órgãos defeituosos – apenas 17 dessas crianças nasceram nos EUA. Kelsey foi aclamada pelo público americano como uma heroína e recebeu o Prêmio do Presidente pelo Serviço Civil Federal Distinto (President’s Award for Distinguished Federal Civilian Service) em 1962.

Mas por que uma funcionária de nível intermediário – apenas um mês em seu novo emprego – conseguiu ter um impacto tão grande?

Em primeiro lugar, há uma enorme quantidade de trabalho a se fazer, e os funcionários de nível sênior não têm tanto tempo assim.

Por exemplo, nos EUA, existem 535 membros no Congresso e cerca de 4.000 nomeados presidenciais no poder executivo. Isso pode parecer muito, mas pense assim: cada uma dessas pessoas, em média, supervisiona cerca de 0,02% do orçamento federal dos EUA – mais de US$ 1 bilhão. Seria literalmente impossível fazer o microgerenciamento disso tudo.

Esta é apenas uma heurística aproximada, mas, dividindo o orçamento federal discricionário de US$ 1,7 trilhão pelo número de pessoas em diferentes níveis de senioridade, podemos estimar o orçamento médio que diferentes subconjuntos de pessoas no governo supervisionam.

Subconjunto de pessoasNúmero aproximadoOrçamento anual por pessoa dentro deste subconjunto
Todos os funcionários federais (exceto trabalhadores dos Correios dos EUA)2,3M$700.000
Funcionários federais que trabalham em Washington DC370.000$4,6M
Serviço Executivo Sênior e nomeados políticos12.000$142M
Nomeados políticos4.000$425M

Note que esse método é apenas uma estimativa da média e há algumas razões para pensarmos que, provavelmente, seja muito alto.

Porém, essas cifras são tão altas que, se você puder contribuir para que os orçamentos sejam usados apenas um pouco mais eficientemente, isso poderia valer milhões de dólares de gastos adicionais na área de foco.

E, de certo modo, essa é uma forma de subestimar a responsabilidade de cada indivíduo, porque muito do que o governo faz não é pensado como definição de orçamentos, mas deriva de regulamentações, política externa, mudança de normas sociais e assim por diante. Os orçamentos aqui mencionados representam apenas uma forma de impacto.

Em segundo lugar, as opiniões de outras pessoas no governo não são completamente fixas. Caso contrário – quer você pense que trata-se de liberdade de expressão protegida ou de uma distorção da democracia – seria difícil explicar por que empresas privadas gastam cerca de US$ 4 bilhões por ano em lobby federal. Para cada dólar que uma empresa orientada para o lucro gasta em lobby, ela provavelmente receberá, em média, mais de um dólar como recompensa por afetar as políticas governamentais. Isso sugere que as pessoas interessadas em mudanças sociais podem ter um impacto, especialmente se estiverem focadas em questões globais com pouco lobby, ou se puderem encontrar formas de influenciar políticas públicas que tenham sido negligenciadas.

E, assim, não é surpreendente que, ao conversarmos com quem trabalha dentro e em torno de governos, descobrimos – como no caso de Frances Kelsey – que as pessoas de fato têm a oportunidade de influenciar as coisas mesmo em cargos juniores (se elas tiverem as competências necessárias).

Nos EUA, conversamos com vários funcionários federais de nível médio e sênior, e a maioria foi capaz de nos dar um exemplo de como teve um grande impacto positivo em seu cargo. Alguns exemplos envolveram iniciar novos programas importantes no valor de dezenas de milhões de dólares, economizar centenas de milhões de dólares para os americanos ou direcionar bilhões para algo potencialmente mais importante. Não fomos averiguar essas histórias, mas no mínimo elas nos convenceram de que funcionários federais de nível médio e sênior, sentem que às vezes podem ter uma influência positiva grande no governo.

No Reino Unido, uma funcionária pública júnior com quem conversamos descobriu, por meio de discussões cautelosas com funcionários públicos seniores, como £250 milhões foram gastos em sua área de atuação política, enquanto os ministros estavam examinando apenas quantias maiores de dinheiro.

E isso não acontece somente no executivo. Por exemplo, no Congresso dos EUA, grande parte do trabalho é feita por membros do Congresso. “Noventa e cinco por cento do minucioso trabalho de elaboração de projetos de lei e de negociação de sua versão final agora são realizados pela equipe”, segundo o ex-senador Ted Kennedy.

Frequentemente, esse trabalho é feito por pessoas muito iniciantes. Um membro da equipe júnior de um gabinete do Congresso nos disse que indivíduos mais seniores (como Chefes de Gabinete), muitas vezes possuem grandes responsabilidades gerenciais, que atrapalham sua capacidade de concentração em pesquisas mais detalhadas de políticas públicas. Por causa disso, eles devem recorrer a funcionários mais juniores (como assistentes legislativos), que têm a capacidade e o tempo para se aprofundar em uma área política específica e fazer propostas concretas.

Tudo isso sugere que você pode efetuar mudanças em grandes instituições (mesmo quando você está apenas começando) e, mais especificamente:

  • Em questões nas quais as pessoas se importam o suficiente para quererem mudanças, mas não o suficiente para fazerem o microgerenciamento dessas mudanças;
  • Onde figuras influentes, como funcionários eleitos, têm metas vagas, sem uma ideia específica do que querem;
  • Quando os detalhes têm um grande impacto – por exemplo, os detalhes de uma lei podem afetar muitas outras leis.

Se tudo correr bem, quanto mais sênior você for, mais influência você terá.

Se você é uma pessoa motivada e se graduou em uma universidade de ponta, ao longo de sua carreira, as chances de alcançar altos escalões do governo são significativas.

Aproximadamente 1 em cada 30 funcionários federais em DC estão no serviço executivo sênior. Além disso, descobrimos que estudantes com uma formação acadêmica sólida e ótimas competências sociais (e um interesse em política), no Reino Unido, teriam cerca de 1 em 3 chances de se tornarem Membro do Parlamento (MP). Em contrapartida, se você se tornasse um funcionário do Congresso nos EUA, teria algo em torno de 1 em 40 chances de ser eleito para o Congresso.

Outros fatores também irão afetar sua capacidade de fazer mudanças, como o grau de politização de sua área (quanto mais política for a área, mais seus movimentos serão contrariados por outros).

Dito isso, muitas pessoas com quem conversamos no serviço público não sentem que têm muita influência. Isso porque muitos cargos não oferecem oportunidades para gerar muito impacto. (Mais adiante, iremos discutir como encontrar empregos que oferecem tais oportunidades, mas mesmo neles pode ser difícil notar seu próprio impacto.)

Mas o potencial para mudança está lá. Você pode pensar que tomar decisões em grandes instituições seria como negociar com diferentes grupos com poder. Na maioria das vezes, você não vai inclinar a balança, mas eventualmente você poderá fazer isso – o que pode gerar um grande impacto.

Mas você precisará usar sua influência com responsabilidade

Ter influência é como uma faca de dois gumes.

Se você usar sua posição de forma inadequada, pode acabar tornando as coisas piores do que eram antes. Isso pode ocorrer facilmente na área de políticas públicas, porque é difícil saber o que realmente vai melhorar as coisas, e certas políticas podem ter consequências não intencionais. Você pode ter grandes preocupações se acabar trabalhando em problemas críticos, como na prevenção de pandemias ou crises nucleares.

Isso não significa que você deva evitar esses trabalhos. Para começar, alguém tem que assumi-los, e provavelmente será melhor para o mundo se mais pessoas altruístas entrarem neles. Esperamos que você, que está lendo este artigo, seja uma dessas pessoas.

No entanto, isso significa que, se você conseguir avançar na carreira, você terá a enorme responsabilidade de usar a sua posição de forma adequada – e quanto mais você avançar, mais responsabilidades terá.

Consequentemente, você deverá dar o seu melhor para ajudar a instituição a fazer mais pelo bem da sociedade e ter um cuidado especial para evitar ações que possam causar danos significativos.

Infelizmente, quanto mais você avança, mais você tende a perder o contato com pessoas que lhe darão um feedback sincero, e mais tentações você enfrentará para agir de modo antiético ou desonesto para preservar sua influência ou “pelo bem maior” – isto é, ser corrompido.

É por isso que nós encorajamos as pessoas que estão considerando esse caminho a focar no desenvolvimento de um bom caráter e garantir que tenham amigos que possam mantê-las honestas nos estágios iniciais, para que esses mesmos amigos estejam por perto, caso elas ganhem muita influência.

Também é importante garantir que você tenha uma clara “vantagem” que lhe permita se sair melhor do que um funcionário típico. Por exemplo, você pode ser capaz de fornecer aos ministros mais conselhos baseados em evidências, contribuir com conhecimentos especializados ou prestar mais atenção ao efeito das políticas públicas no futuro a longo prazo.

Dito isso, mesmo pessoas talentosas e muito bem-intencionadas podem falhar em fazer o bem no governo e até mesmo causar danos, então vale a pena aprender constantemente e pensar de modo cuidadoso e crítico sobre o que realmente ajudará. Leia mais conselhos sobre como evitar danos.

O que envolve o uso de um conjunto de competências políticas?

Qualquer trajetória profissional que resulte em uma posição institucional influente poderia ser um motivo para usar essas competências, embora algumas opções possam ser mais relevantes para os problemas que consideramos mais urgentes.

Isso geralmente envolve os seguintes passos:

1. Identificar instituições que poderiam desempenhar um papel importante no enfrentamento de alguns dos problemas que você considera mais urgentes. Veja um artigo introdutório sobre como comparar problemas globais em termos de impacto e listas de instituições importantes para cada área em nossos perfis de problemas e quadro de empregos.

2. Aprender a fazer contribuições úteis para uma instituição (ou grupo de instituições) ganhando experiência, credibilidade, senioridade e autoridade.

3. Muitas vezes, isso envolve o desenvolvimento de uma especialidade relevante para os problemas nos quais você deseja focar. Por exemplo, se você quiser trabalhar no enfrentamento de pandemias planejadas, você pode se especializar em contra-terrorismo, política tecnológica ou política biomédica. Isso servirá tanto para ajudá-lo a avançar para cargos mais relevantes, quanto para melhorar sua compreensão de quais políticas são realmente úteis. Dito isso, muitos formuladores de políticas públicas permanecem generalistas. Nesse caso, você precisa encontrar consultores especialistas confiáveis para ajudá-lo a entender quais mudanças políticas seriam mais úteis.

4. Migrar para cargos que o coloquem em uma posição melhor para ajudar a enfrentar esses problemas. Focando novamente no exemplo das pandemias, você poderia trabalhar no Centro de Controle e Prevenção de Doenças e, depois, avançar para posições mais seniores.

5. Ter um impacto usando sua posição e expertise para melhorar políticas públicas e práticas relevantes para problemas globais urgentes, ou chamando a atenção de autoridades para prioridades negligenciadas, mas importantes.

Dentro desse conjunto de competências, é possível focar mais na pesquisa de políticas públicas ou em sua implementação. A pesquisa envolve o desenvolvimento de ideias para novas políticas públicas e requer competências em pesquisa aplicada. Já a implementação de políticas públicas requer um conjunto de competências de desenvolvimento organizacional e gera um impacto ao tornar uma instituição importante mais eficiente.

Também há um espectro de cargos, desde os mais técnicos até aqueles – como em partidos políticos ou cargos eleitorais – que são mais políticos e que lidam mais diretamente com o público geral e com os assuntos atuais.

Além dos cargos realizados dentro de instituições relevantes, também existem aqueles de “influenciadores”, que visam moldar essas instituições de fora.

Isso inclui empregos em laboratórios de ideias (“think tanks”), ativismo sem fins lucrativos, jornalismo, meio acadêmico e até mesmo em corporações, em vez de no governo.

As competências necessárias para o trabalho de influenciador são, de muitas maneiras, semelhantes àquelas necessárias para cargos políticos, mas também se sobrepõem às competências de pesquisa e de comunicação de ideias. Essas opções podem ser mais adequadas para alguém que deseja trabalhar em uma organização menor, que se sente menos confortável com a cultura política, ou que quer se concentrar mais em ideias, do que em sua aplicação.

Na prática, as pessoas muitas vezes alternam entre posições de influenciadores e posições governamentais ao longo de suas carreiras.

Algumas pessoas pensam que, para trabalhar com políticas públicas, você tem que ser ótimo em networking.

Isso não é totalmente verdade – como vimos, dependendo do seu cargo, você pode se concentrar mais em entender e pesquisar políticas públicas, em comunicar ideias para um público específico, ou simplesmente em compreender muito bem sua instituição específica.

Mas ainda é verdade que as competências de networking são mais importantes para o desenvolvimento de um conjunto de competências políticas do que, por exemplo, se você quisesse trabalhar com pesquisa pura – e você pode entender mais sobre como fazer networking em nosso artigo sobre como ter sucesso em qualquer emprego. Várias pessoas – tanto nos EUA como no Reino Unido – nos disseram que é importante ser amigável e agradável com os outros.

Por fim, gostaríamos de enfatizar o valor que um trabalho relacionado à política pode ter na indústria, especialmente se você estiver interessado em políticas relacionadas à IA. Enquanto a política governamental provavelmente terá um papel fundamental na coordenação de vários atores interessados em reduzir os riscos da IA avançada, políticas internas, trabalho de cumprimento (“compliance work”), lobby e regulamentação corporativa dentro dos maiores laboratórios de IA também são ferramentas poderosas. A colaboração entre laboratórios e governo também requer um trabalho que pode usar competências semelhantes, como gerenciamento das partes interessadas (“stakeholder management”), formulação de políticas e construção de confiança (“trust-building”).

Exemplos de pessoas

Tom Kalil

Tom estudou Ciência Política e Economia Internacional, e então realizou um trabalho voluntário em uma campanha presidencial nos Estados Unidos. Isso resultou em outras oportunidades, que se multiplicaram em uma longa carreira na política. Enquanto trabalhava na Casa Branca dos governos Clinton e Obama, ele ajudou a projetar e lançar iniciativas nacionais para promover o desenvolvimento da internet, nanotecnologia e modelagem cerebral inovadora.

Ouça a nossa entrevista com Tom

Beth Cameron

Beth é vice-presidente da Iniciativa de Ameaças Nucleares (Nuclear Threat Initiative) na área de políticas públicas e programas biológicos globais. Anteriormente, ela trabalhou na Força-Tarefa do Ebola da Casa Branca (White House Ebola Task Force), na equipe do Conselho de Segurança Nacional (National Security Council) e como assessora sênior do Secretário-Assistente de Defesa para Programas de Defesa Nuclear, Química e Biológica (Assistant Secretary of Defense for Nuclear, Chemical and Biological Defense Programs).

Ouça a nossa entrevista com Beth

Como avaliar sua compatibilidade

Esse conjunto de competências é bastante amplo e, por isso, pode abranger diferentes tipos de pessoas. Não o descarte, com base em uma opinião vaga de que o trabalho governamental não é para você!

Por exemplo, ingressar na política por meio de uma expertise específica pode ser uma boa opção para pessoas interessadas em carreiras de pesquisa, mas que gostariam de fazer algo mais prático. Muitos cargos são totalmente diferentes do estereótipo de um político dando incontáveis apertos de mão, ou de como imaginamos um “burocrata do governo”.

Como prever sua compatibilidade

Aqui estão algumas características que parecem indicar uma ótima compatibilidade:

  • Você tem potencial para conseguir construir relações e adaptar-se. Em muitos desses cargos, você precisa desenvolver boas relações com uma ampla gama de pessoas em pouco tempo, transparecer competência e simpatia em suas interações, querer genuinamente agregar valor e ajudar os outros a alcançar seus objetivos, fazer um acompanhamento consistente e manter contato com as pessoas, e construir uma reputação e ser lembrado.

Ter empatia e inteligência social para que você possa modelar com precisão os pontos de vista e necessidades das outras pessoas, ajuda nesse processo. Também ajuda se você conseguir lembrar pequenos detalhes sobre as pessoas! Você não precisa, necessariamente, ter todas essas competências logo no início, mas você deve estar interessado em aprimorá-las.

Essas competências são mais importantes para cargos político-partidários voltados ao público e também são necessárias para trabalhar em grandes instituições. No entanto, também existem cargos focados mais na aplicação de expertise técnica acerca de políticas públicas e que não exigem tanto essas competências (embora elas provavelmente sejam mais importantes nesse contexto do que, por exemplo, no meio acadêmico).

  • Você consegue pensar em uma instituição relevante na qual possa se imaginar relativamente feliz, produtivo e motivado por um longo tempo – enquanto segue as regras da instituição. Tente conversar com pessoas que estejam há mais tempo nessa instituição, para obter uma ideia clara de quanto tempo você levará para alcançar o tipo de posição que você almeja, como será sua vida diária nesse período e o que você precisará fazer para ser bem-sucedido.
  • Ter a cidadania certa. Existem muitos cargos políticos influentes e importantes em todos os países, então você deve considerá-los onde quer que você more. Mas alguns cargos nos EUA parecem ter um impacto bastante significativo – assim como certos cargos em grandes instituições como a UE. Nos EUA, em particular, qualquer um dos cargos mais relevantes relacionados aos problemas que consideramos mais urgentes – especialmente no Poder Executivo e no Congresso – está disponível apenas para (ou, no mínimo, favorecerá muito) cidadãos americanos. Todos os principais cargos de segurança nacional que podem ser importantes serão restritos a quem tiver cidadania americana, que é necessária para obter um certificado de segurança.

Se você tem interesse na política dos EUA e curiosidade sobre os caminhos de imigração e sobre os tipos de trabalho em política disponíveis para não-cidadãos, veja este post. Considere também participar do sorteio anual de vistos de diversidade se você for de um país elegível, pois isso requer pouco esforço e permite que você adquira um Green Card se tiver sorte (obter um Green Card é a única maneira de se tornar um cidadão dos EUA).

  • Estar confortável com a cultura política. A cultura política, especialmente na política federal dos EUA, pode ser difícil de se navegar. Algumas pessoas que conhecemos entraram em posições políticas promissoras, mas depois sentiram que essa cultura não era adequada para elas. Especialistas com quem conversamos dizem que, em Washington, DC, existe um grande foco cultural em networking e em política burocrática interna para ser explorado. Também nos disseram que, embora o mérito seja um elemento importante para se trabalhar no governo dos EUA, este não é o principal determinante para o sucesso. Acreditamos que a situação seja semelhante em outros países. Pessoas que acham que não se sentiriam capazes ou confortáveis nesse tipo de ambiente por um longo período devem considerar se outras competências ou instituições seriam uma melhor opção para elas.

Porém, isso varia substancialmente de acordo com a área e o cargo. Certos cargos, como em um parlamento ou em um lugar como a Casa Branca, estão muito mais expostos à política do que outros. Além disso, se você trabalha em um problema altamente partidário e controverso, é muito mais provável que você fique exposto a dinâmicas políticas intensas, do que se trabalhasse em questões mais específicas, tecnocráticas ou multipartidárias.

Talvez seja útil se você puder encontrar maneiras de fazer testes baratos primeiro, como conversar com alguém na área (o que poderia levar algumas horas) ou fazer um estágio (o que poderia levar alguns meses). Mas, frequentemente, você precisará ter um emprego na área para saber se essa é uma boa opção para você – e, caso não seja, estar disposto a mudar após um ano ou mais. Para mais informações, leia nosso artigo sobre como encontrar um emprego que combine com você.

Como saber se você está no caminho certo

Primeiro, pergunte a si mesmo: “Com que velocidade e êxito minha carreira está progredindo, de acordo com os padrões da instituição na qual estou focado atualmente?”. Pessoas com mais experiência (e em cargos mais elevados) na instituição, frequentemente poderão ajudá-lo a ter uma ideia clara de como isso está acontecendo. (Geralmente, também é importante ter boas relações com algumas pessoas experientes, para receber uma opinião honesta delas – este é, na maioria dos casos, um indicador a mais de que você está “no caminho certo”.)

Porém, deve-se ressaltar que o ritmo de progressão pode variar bastante dependendo do cargo específico que você ocupa nessa instituição. Por exemplo, no Congresso, a velocidade de promoção muitas vezes tem menos a ver com suas competências e mais com o momento e a rotatividade do gabinete. Consequentemente, quanto melhor o gabinete, menos pessoas saem e mais lento é o ritmo de promoção; o oposto disso muitas vezes vale para os gabinetes ruins. Então, você precisa se certificar de que está se avaliando de acordo com os parâmetros relevantes – de novo, pessoas com mais experiência na instituição podem ser capazes de ajudá-lo nisso.

Outra pergunta relevante a se fazer é: “Quão sustentável isso parece ser?”. Esta pergunta é relevante para todas as competências, mas especialmente neste caso – para cargos governamentais e políticos, as principais coisas que afetam o seu progresso são, simplesmente, o tempo que você consegue permanecer no cargo e sua consistência no cumprimento das expectativas explícitas e implícitas da instituição. Portanto, se você descobrir que pode gostar do trabalho governamental e político, isso já é um grande sinal de que você está no caminho certo. Ser capaz de crescer no trabalho governamental pode ser uma vantagem comparativa extremamente valiosa.

Outra maneira de avançar em sua carreira no governo, especialmente no que se refere a uma área política específica, é o que alguns chamam de “ganhar visibilidade” – ou seja, usar sua posição para compreender o cenário e se conectar com os atores e instituições que influenciam a área política pela qual você se interessa. Você vai querer ser convidado para reuniões com outros funcionários e agências, ser solicitado a dar sua opinião em decisões e se envolver socialmente com outras pessoas que trabalham na área política. Se você conseguir se firmar como um especialista respeitável em um aspecto importante, mas negligenciado do problema, você terá mais chances de ser incluído em discussões e eventos relevantes.

Como começar a desenvolver competências políticas

Existem duas maneiras principais de começar:

  1. Instituição em primeiro lugar. Você começaria sua carreira tentando encontrar um conjunto de instituições que sejam compatíveis com você e que pelo menos pareçam relevantes para os problemas que você considera mais urgentes (por exemplo, o Poder Executivo do governo dos EUA ou empresas de tecnologia). Então, você poderia tentar subir na hierarquia dessas instituições.
  1. Especialidade em primeiro lugar. Neste caminho, você se concentra inicialmente em desenvolver uma especialidade ou área de especialização relevante (por exemplo, no meio acadêmico ou em “think tanks”) e, depois, usa esse conhecimento para migrar para posições institucionais. Além disso, pessoas com credenciais e conquistas de destaque fora do governo (por exemplo, em negócios, consultoria ou direito), às vezes podem ingressar em departamentos e agências importantes em níveis seniores e influentes.

Se você optar pelo caminho da instituição primeiro, você pode tentar conseguir qualquer emprego nessa instituição e se concentrar em ter um bom desempenho de acordo com os parâmetros dela. Se tudo correr bem, seria melhor trabalhar em empregos relevantes para um problema urgente, mas tentar progredir provavelmente deveria ser seu principal objetivo no início de carreira.

A melhor maneira de aprender como ter um bom desempenho e progredir é conversando com pessoas que estejam algumas etapas à sua frente. Também olhe para casos de pessoas que tenham progredido de forma incomum e tente desvendar o que elas fizeram.

Às vezes, a melhor maneira de progredir será indo, temporariamente, para um lugar que não seja a instituição escolhida. Por exemplo, entrar em uma faculdade de Direito, fazer um curso sobre Políticas Públicas ou trabalhar em “think tanks”, podem te proporcionar credenciais e conexões que, mais tarde, irão lhe abrir portas no governo.

Se você estiver focado em desenvolver uma especialidade em uma área específica da política, então é comum fazer pós-graduação em uma disciplina relevante para essa área (por exemplo, Economia, Aprendizado de Máquina, Biologia).

Como sempre, se esses caminhos são uma boa maneira de desenvolver suas competências ,depende muito do trabalho ou programa específico e das pessoas com as quais você trabalhará:

  • Você receberá uma boa mentoria?
  • Qual é a reputação dessas pessoas no campo?
  • Elas têm um bom caráter?
  • A agenda política delas parece positiva?
  • A cultura desse lugar será compatível com você?

Com isso em mente, aqui estão alguns próximos passos que podem ser particularmente úteis no desenvolvimento dessas competências:

Bolsas de estudo e programas de liderança

Bolsas de estudo podem ser uma maneira eficaz de você ganhar experiência dentro do governo ou em “think tanks” e podem ajudá-lo a avançar rapidamente para cargos governamentais mais seniores.

Algumas bolsas são destinadas a pessoas que já têm alguma experiência profissional fora da política mas que desejam migrar para cargos governamentais, enquanto outras são voltadas para recém-formados.

Nos Estados Unidos, considere a Presidential Management Fellows para recém-formados em programas avançados, a Horizon Fellowship, a bolsa AAAS para pessoas com doutorado em Ciências ou mestrado em Engenharia, ou a bolsa TechCongress para profissionais de tecnologia no meio da carreira. Se você concluiu um mestrado em Ciência, Tecnologia, Engenharia e/ou Matemática (“STEM”), também considere o Mirzayan Science and Technology Policy Graduate Fellowship Program.

No Reino Unido, você pode tentar o Civil Service Fast Stream. E, se você estiver interessado nas políticas de IA da UE, você pode se candidatar à EU Tech Policy Fellowship. Também compilamos uma lista de opções de mestrado em Políticas Públicas no Reino Unido / UE em nosso quadro de empregos.

Pós-graduação

Em geral, recomendamos mais os programas de pós-graduação em Economia ou Aprendizado de Máquina. (Leia mais sobre por que esses são os melhores cursos para se estudar na pós-graduação.)

Outros tópicos úteis para se destacar, considerando nossa lista de problemas urgentes, incluem:

  • Outros tópicos quantitativos aplicados, como ciência da computação, física e estatística
  • Estudos de segurança, relações internacionais, políticas públicas ou faculdade de direito, especialmente para ingressar em carreiras governamentais e políticas
  • Subcampos da biologia relevantes para a prevenção de pandemias (como biologia sintética, biologia matemática, virologia, imunologia, farmacologia ou vacinologia)

Muitos programas de mestrado oferecem disciplinas específicas voltadas para políticas públicas, ciência e sociedade, estudos de segurança, relações internacionais e outros tópicos. Ter um diploma de pós-graduação ou uma graduação em Direito lhe dará uma vantagem para ocupar muitas posições.

Nos Estados Unidos, um mestrado em Política, um diploma de Direito ou um doutorado são particularmente úteis se você deseja ascender na burocracia federal. Escolher uma faculdade de pós-graduação perto de DC pode ser uma boa ideia, especialmente se você pretende trabalhar em meio período ou até mesmo em período integral na área política enquanto faz a pós-graduação.

Enquanto você estuda (seja na pós ou na graduação), estágios — por exemplo, em DC — são um caminho promissor para você avaliar sua compatibilidade com o trabalho na política e estabelecer capital de carreira inicial. Muitas instituições acadêmicas nos EUA oferecem um programa chamado “Semestre em DC” (Semester in DC), que pode lhe possibilitar explorar estágios de sua escolha no Congresso, em agências federais ou em “think tanks”. O Serviço Federal de Estudantes Virtuais (Virtual Student Federal Service, VSFS) também oferece estágios governamentais de meio período e remotos.

Mas tenha em mente que uma pós-graduação apresenta o risco de que você passe muito tempo nela sem aprender muito sobre a carreira que pretende seguir ou o problema que deseja resolver. Às vezes, pode fazer sentido experimentar um cargo júnior ou estágio, ver como você se sente e ter certeza de que um diploma de pós-graduação valerá a pena antes de buscar um programa.

Leia mais sobre fazer pós-graduação.

Trabalhar para um político ou em uma campanha política

Trabalhar para um político como pesquisador ou membro de sua equipe (por exemplo, como pesquisador parlamentar no Reino Unido, como funcionário legislativo de um membro do Congresso, ou como membro da equipe de campanha de um candidato eleitoral) pode ser um passo útil para assumir posições políticas. Essa etapa também é trabalhosa, prestigiosa (especialmente nos EUA, e menos no Reino Unido) e proporciona muitas conexões. Depois, também é comum migrar para o Poder Executivo ou concorrer a um cargo. Leia mais em nossa análise de carreira sobre como se tornar membro do Congresso.

Você não precisa necessariamente de um mestrado ou outro diploma avançado para trabalhar no Congresso dos EUA. Mas muitos de seus membros acabam buscando um diploma de pós-graduação, em parte porque agências federais e “think tanks” geralmente se preocupam mais com credenciais formais, e muitos membros do Congresso em algum momento migram para essas instituições.

Você também pode trabalhar para um político em uma campanha específica — algumas das principais pessoas que trabalham em campanhas vitoriosas acabam conseguindo cargos de grande impacto no governo federal. Essa é uma estratégia de alto risco: muitas vezes só compensa se o seu candidato vencer e, mesmo assim, nem todos os membros da equipe da campanha conseguirão empregos influentes ou empregos nas áreas que lhes interessam, especialmente se você for um membro júnior na equipe da campanha. (Concorrer a um cargo também envolve uma dinâmica semelhante de alto risco e alto retorno.)

Cargos no Poder Executivo

Procure cargos de nível básico em seu governo nacional, novamente concentrando-se em posições equivalentes no Poder Executivo ou naquelas mais relevantes para a formulação de políticas públicas.

Nos EUA, você pode assumir um cargo de nível básico como funcionário federal, preferencialmente trabalhando em algo relevante para um problema que você deseja ajudar a resolver ou que lhe dará uma flexibilidade para trabalhar em vários problemas urgentes. As posições mais influentes geralmente estão no Poder Executivo.

Dito isso, a maioria das pessoas nos informou que, nos EUA, obter um diploma de pós-graduação antes é ainda melhor, porque isso lhe permitirá alcançar níveis mais altos na carreira e senioridade mais rapidamente. Um diploma de pós-graduação também pode qualificá-lo para bolsas de estudo.

Para o Reino Unido, veja nosso artigo sobre carreiras no serviço público.

Cargos em “think tanks”

“Think tanks” são organizações que não fazem parte do governo, mas que se concentram em informar e, em última análise, influenciar a formulação de políticas públicas.

Cargos de pesquisa em “think tanks” envolvem conduzir pesquisas aprofundadas sobre áreas de políticas públicas específicas e formular recomendações relevantes. Esses pesquisadores muitas vezes colaboram com especialistas, organizam eventos, interagem com formuladores de políticas e mantêm contato com a mídia, para influenciar e informar o discurso sobre políticas públicas. Isso muitas vezes envolve captação de recursos, elaboração de projetos e manter-se atualizado sobre as tendências políticas — e pode te ensinar muitas das competências que são úteis no governo.

Esses cargos são relativamente competitivos e sua reputação pode estar atrelada a instituições específicas para as quais você trabalha — o que pode ter vantagens e desvantagens.

Os “think tanks” também empregam funcionários não pesquisadores nas áreas de comunicação, RH, finanças e outras; esses cargos são menos propensos a impactar significativamente os resultados de políticas públicas, embora ainda possam ser uma maneira razoável de se construir um capital de carreira na política.

Além disso, os funcionários dos “think tanks” geralmente são divididos de forma bastante nítida entre funcionários de nível inicial e funcionários seniores com diplomas avançados (muitas vezes, doutorados), com relativamente poucos cargos de nível intermediário. Por esse motivo, é bastante incomum que as pessoas permaneçam e avancem dentro de um “think tank” sem ir para a pós-graduação ou outro cargo.

Esses cargos permitem que você aprenda sobre questões políticas importantes e podem abrir muitas portas na área de políticas públicas. Uma opção é continuar trabalhando em “think tanks” ou em outras posições influentes, talvez se especializando em uma área específica da política. Caso contrário, é comum migrar dos “think tanks” para o Poder Executivo, uma campanha ou outras posições políticas.

(Leia mais em nossa análise de carreira sobre o trabalho em “think tanks”.)

Outras opções

Também é comum entrar em empregos relacionados à política e ao governo por meio de consultoria e do direito, bem como de outros serviços profissionais, relações públicas e negócios em geral.

De modo mais amplo, ter competências de desenvolvimento organizacional (por exemplo, conhecimentos sobre relações públicas, comunicações organizacionais, finanças e contabilidade) ou competências de pesquisa pode ajudá-lo a encontrar cargos políticos.

Encontre empregos que usem competências políticas

Se você acha que tem um perfil compatível com esse conjunto de competências e que está pronto para começar a procurar oportunidades de emprego que estejam aceitando candidaturas, veja nossa lista selecionada de oportunidades.

Depois de adquirir essas competências, como você pode aplicá-las melhor para ter um impacto?

Vamos supor agora que você já esteja em uma posição que te permita fazer as coisas em uma instituição importante e que, tendo adquirido uma especialidade ou uma rede de consultores sobre problemas específicos, você também tenha algumas ideias sobre coisas importantes que gostaria de ver acontecer. E agora, o que você deve fazer?

Dependendo do problema e de sua posição, você pode buscar ter um impacto:

  1. Aprimorando a implementação de políticas públicas relevantes para um problema urgente. Por exemplo, você pode trabalhar em uma agência que regula a biologia sintética.
  2. Reunindo apoio para ideias de políticas públicas. Por exemplo, você poderia apresentar a um político para quem você trabalha as principais áreas de consenso sobre estratégias promissoras de como o governo pode reduzir a pobreza global.
  3. Propondo ideias para novas políticas públicas. Por exemplo, você pode elaborar novas propostas para implementar políticas de regulamentação da computação.

Aprimorando a implementação de políticas públicas

Quando as pessoas pensam sobre carreiras políticas, geralmente pensam em pessoas de terno tendo longos debates sobre o que fazer.

Mas uma política é, fundamentalmente, apenas uma ideia. Para uma ideia ter impacto, alguém realmente precisa colocá-la em prática.

A diferença entre uma mesma política que é implementada mal e outra com competência pode ser enorme. Por exemplo, durante a COVID-19, alguns governos reagiram muito mais rapidamente do que outros, salvando milhares de vidas de cidadãos.

Além disso, muitas políticas são, por necessidade, apenas vagamente definidas. Por exemplo, um conjunto de padrões de segurança de medicamentos pode precisar demonstrar que há “evidências razoáveis” de que um medicamento é seguro, mas — conforme mostrado por Frances Kelsey — a forma como isso é interpretado, fica a cargo da agência relevante e pode até mesmo mudar ao longo do tempo.

Muitos detalhes são frequentemente deixados indefinidos quando a política é criada e, de novo, esses detalhes são preenchidos por funcionários do governo.

Esta opção, em especial, exige competências como gestão de pessoas e projetos, planejamento, coordenação dentro e fora do governo, comunicação, alocação de recursos, treinamento e outras mais.

Portanto, se você puder se tornar excelente em uma ou mais dessas coisas (e conhecer muito bem a instituição em que trabalha), vale a pena tentar identificar grandes projetos que possam ajudar a resolver os problemas que você considera mais urgentes — e então ajudá-los a funcionar melhor.

Esses cargos geralmente estão no Poder Executivo, como no Departamento de Defesa, no Departamento de Estado, nas agências de inteligência ou na Casa Branca. (Veja também nosso perfil sobre carreiras no serviço público do Reino Unido.)

Apresentar ideias para novas políticas públicas a importantes tomadores de decisão

Uma maneira de obter impacto é ajudando a colocar questões “em pauta”, recebendo a atenção e o apoio de pessoas importantes.

Por exemplo, quando os políticos assumem seus cargos, eles muitas vezes seguem uma cartilha de promessas feitas a seus eleitores e apoiadores sobre quais pautas políticas desejam seguir. Em graus variados, eles podem ter um foco em problemas específicos — por exemplo, tendo um amplo mandato focado em “melhorar a saúde”. Ou podem ter um foco em soluções mais específicas — por exemplo, visando criar um sistema de saúde de pagador único ou remover burocracias enfrentadas por indústrias fundamentais. Essas pautas são formadas através de discussões públicas, narrativas da mídia, política interna do partido, debate deliberativo, defesa de grupos de interesse e outras formas de contribuição. Usar qualquer uma dessas estratégias para colocar algo em pauta é uma ótima maneira de ajudar a garantir que ela aconteça.

Você pode contribuir para esse processo em cargos de consultoria política (por exemplo, sendo membro da equipe de um congressista) ou por meio de posições influentes, como em “think tanks”.

Como regra geral, se você está trabalhando dentro de uma instituição (como uma grande empresa ou um departamento de governo), você quer progredir o máximo enquanto continua a lidar com um conjunto específico de questões. Em tal cargo, você estará em contato com todos os interessados principais, desde as pessoas mais importantes até aquelas que estão no mesmo nível que você.

Mas é importante lembrar que, para muitas questões importantes, os formuladores de políticas públicas ou os funcionários em vários níveis do governo, também podem priorizar a resolução de certos problemas ou a adoção de propostas específicas que não são objeto de debate nacional. Na verdade, às vezes dar muito destaque a certas questões, apresentando-as de modo divisivo ou permitindo que o partidarismo e a polarização política moldem a discussão, pode dificultar uma condução bem-sucedida.

Desenvolvendo ideias para novas políticas públicas

Em muitas áreas relevantes para problemas particularmente urgentes, há uma falta de políticas públicas concretas prontas para serem implementadas.

A criação de políticas públicas é um processo longo, muitas vezes partindo de ideias intelectuais amplas, que são desenvolvidas de modo iterativo, com propostas mais práticas, por “think tanks”, servidores públicos, partidos políticos, ativistas e outros, e então são ajustadas de acordo com a sua recepção por pares, mídia e eleitorado, e também com a realidade política da época.

Uma vez que há opções concretas de políticas públicas na mesa, elas devem passar por um processo de tomada de decisões e de negociações relevantes. Em países com revisão judicial forte, como os EUA, muita atenção é dispensada para garantir que leis e regulamentos resistam ao escrutínio dos tribunais.

Tudo isso significa que existem muitas maneiras de se contribuir para a criação de políticas públicas, em cargos que incluem desde acadêmicos até funcionários do governo.

Muitos detalhes das políticas públicas são resolvidos apenas em etapas posteriores por servidores públicos e assessores políticos. Isso também significa que não há uma divisão clara entre a criação de políticas e sua implementação — trata-se mais de um espectro em que essas duas coisas se misturam.

No contexto corporativo, a criação de políticas internas pode ter funções semelhantes. Embora possam ser menos aplicáveis, exceto quando previstas em contratos, as diretrizes criadas pelas políticas podem moldar consideravelmente o comportamento de uma empresa.

Embora a pesquisa de políticas públicas seja o trabalho principal dos “think tanks”, muitos membros do Congresso, agências e a Casa Branca também desenvolvem ideias para políticas públicas ou traduzem ideias já existentes em propostas concretas. Para muitas áreas de políticas técnicas, especialmente políticas relacionadas à IA, algumas das melhores pesquisas estão sendo feitas em laboratórios industriais, como na OpenAI e na DeepMind. (Leia mais para saber se você deve aceitar um emprego em um dos principais laboratórios de IA.)

Para mais detalhes sobre o complexo trabalho de criação de políticas públicas, recomendamos o artigo de Thomas Kalil, Empreendedorismo político na Casa Branca: fazendo as coisas acontecerem em grandes organizações (Policy Entrepreneurship in the White House: Getting Things Done in Large Organisations).

Artigos nossos sobre planos de carreira que utilizam essas competências

Saiba mais sobre governo e políticas públicas

Veja todos os nossos materiais sobre carreiras na política.