Traduzido, editado e adaptado pela equipe do Carreiras Eficazes, de modo a atender as necessidades das comunidades lusófonas com autorização dos produtores do texto original.
É fácil sentir que uma única pessoa não pode fazer diferença. O mundo tem tantos problemas grandes, e eles frequentemente parecem impossíveis de serem resolvidos.
Assim, quando começamos o 80.000 Horas — visando ajudar as pessoas a fazerem o bem com suas carreiras, uma das primeiras perguntas que fizemos foi: “Quanta diferença uma única pessoa pode realmente fazer?”
Descobrimos que, enquanto muitos jeitos comuns de fazer o bem (como tornar-se um médico) têm um impacto menor do que você pode imaginar a princípio, outros meios permitiram que certas pessoas atingissem um impacto extraordinário.
Em outras palavras, uma pessoa pode fazer a diferença, mas você pode ter que fazer algo não muito convencional.
Neste artigo, começamos estimando quanto bem que você poderia fazer ao se tornar um médico. Depois, compartilhamos algumas histórias de pessoas com maior impacto na história e consideramos o que elas significam para sua carreira.
Tempo de leitura: 12 minutos
Que impacto os médicos têm?
Muitas pessoas que querem ajudar os outros se tornam médicos. Um dos nossos primeiros leitores, o Dr. Greg Lewis, fez exatamente isso. “Eu quero estudar medicina por causa de um desejo que tenho de ajudar os outros”, escreveu ele em sua inscrição na universidade, “e assim não posso resistir à chance de ter uma carreira fazendo algo que vale a pena”.
Então, nos perguntamos: quanta diferença tornar-se um médico realmente faz? Nós nos juntamos a Greg para descobrir.
Como o objetivo principal de um médico é melhorar a saúde, tentamos descobrir quanta “saúde extra” um médico realmente acrescenta à humanidade. Descobrimos que, em média, no decorrer de sua carreira, um médico no Reino Unido permitirá que seus pacientes vivam cerca de 100 anos extras combinados de vida saudável, seja ampliando sua expectativa de vida, seja melhorando sua saúde em geral. Há, claro, uma enorme incerteza nesse valor, mas é improvável que o número real seja dez vezes maior.
Usando uma taxa de conversão padrão (usada pelo Banco Mundial entre outras instituições) de 30 anos extras de vida saudável para uma “vida salva”, 100 anos de vida saudável equivalem a três vidas salvas. Isso é claramente um impacto significativo; no entanto, é menor do que muitas pessoas esperam que os médicos tenham em suas carreiras inteiras.
Há três razões principais pelas quais esse impacto é mais baixo do que você esperaria:
- Os pesquisadores concordam em grande parte que a medicina só aumentou a expectativa de vida média em poucos anos. A maioria dos ganhos na expectativa de vida nos últimos 100 anos ocorreu, em vez disso, devido a melhor nutrição, melhor saneamento, maior riqueza e outros fatores.
- Os médicos são apenas parte do sistema médico, que também depende de enfermeiros e da equipe hospitalar, bem como de despesas gerais e equipamentos. O impacto das intervenções médicas é compartilhado por todos esses elementos.
- Mais importante, já existem muitos médicos no mundo desenvolvido; por isso, se você não se tornar um médico, alguém estará disponível para realizar os procedimentos mais cruciais. Médicos adicionais, portanto, só nos permitem realizar procedimentos que forneçam resultados menos significativos e menos certos.
Este último ponto é ilustrado pelo gráfico abaixo, que compara o impacto dos médicos em diferentes países. O eixo y mostra a quantidade de problemas de saúde na população, medida em Anos de Vida Corrigidos pela Incapacidade (DALYs) por 100.000 pessoas, sendo um DALY igual a um ano de vida perdido devido a problemas de saúde. O eixo x mostra o número de médicos por 100.000 pessoas.
DALYs por 100.000 pessoas versus médicos por 100.000 pessoas. Usamos dados da OMS de 2004. A linha é a hipérbole mais bem ajustada determinada por regressão não linear de mínimos quadrados. A explicação na íntegra está neste esboço de artigo.
Você pode notar que a curva fica quase horizontal ao ter mais de 150 médicos por 100.000 pessoas. Após esse ponto (onde quase todos os países desenvolvidos se encontram), médicos adicionais conseguem atingir apenas um pequeno impacto em média.
Se você se tornar um médico em um país rico, como os EUA ou o Reino Unido, poderá fazer um bem maior do que em muitos outros empregos. No entanto, mesmo que você seja um médico excepcional, seu impacto provavelmente não será enorme.
De fato, no próximo artigo, mostraremos como quase todo estudante universitário pode fazer mais para salvar vidas do que um médico típico. E no restante do guia de carreiras, abordaremos muitos outros exemplos de tentativas comuns, porém ineficazes, de fazer o bem.
Essas descobertas motivaram Greg a mudar da medicina clínica para a biossegurança, por razões que explicaremos no restante do guia.
Quem foram as pessoas de maior impacto na história?
Apesar dessa estatística pouco inspiradora sobre quantas vidas um médico salva, alguns médicos tiveram muito mais impacto do que isso. Vejamos alguns exemplos das carreiras de maior impacto na história e analisar o que podemos aprender com eles. Primeiro, vamos nos voltar para a pesquisa médica.
Em 1968, havia sido demonstrado que uma solução de glicose e sal, aplicada por um tubo de alimentação ou um soro intravenoso, podia prevenir a morte por cólera. Mas milhões de pessoas ainda morriam da doença a cada ano. Enquanto trabalhava em um campo de refugiados na fronteira entre Bangladesh e a Birmânia, o Dr. David Nalin visou transformar esse insight numa terapia que pudesse ser usada em áreas rurais pobres. Ele mostrou em um estudo que simplesmente beber uma solução feita com a concentração correta e consumida na taxa correta poderia ser quase tão eficaz quanto uma aplicação intravenosa ou por meio de um tubo de alimentação.
O Dr. Nalin ajudou a salvar milhões de vidas com uma invenção simples: dar água misturada com sal e açúcar aos pacientes com diarreia.
Desde então, esse tratamento surpreendentemente simples é usado em todo o mundo, e a taxa anual de mortalidade infantil por diarreia despencou de 5 milhões para 1,5 milhão. Pesquisadores estimam que a terapia salvou mais de 50 milhões de vidas até o momento, principalmente de crianças.
Se o Dr. Nalin não estivesse por perto, alguém mais, sem dúvida, acabaria descobrindo esse tratamento. No entanto, mesmo se imaginarmos que ele tenha acelerado a descoberta em termos de apenas cinco meses, seu trabalho sozinho teria salvado cerca de 500.000 vidas. Essa é uma estimativa muito aproximada, mas torna seu impacto mais de 100.000 vezes maior do que o de um médico comum:
Mas mesmo na pesquisa médica, o Dr. Nalin está muito longe de ser o exemplo mais extremo de uma carreira de alto impacto. Por exemplo, uma estimativa atribui à descoberta dos grupos sanguíneos de Karl Landsteiner um impacto de dezenas de milhões de vidas salvas, ao viabilizar transfusões.
Além do campo da medicina, mais adiante no guia, abordaremos a história de um matemático, Alan Turing, e um burocrata, Viktor Jdanov, de enorme impacto.
Ou pensemos de modo ainda mais amplo. Roger Bacon e Galileu foram os pioneiros do método científico, sem o qual nenhuma das descobertas que citamos acima teria sido possível, juntamente com outros avanços tecnológicos como a Revolução Industrial. Esses indivíduos conseguiram fazer um bem muito maior do que os médicos de destaque.
O desconhecido tenente-coronel soviético que salvou sua vida
Ou considere a história de Stanislav Petrov, um tenente-coronel do exército soviético durante a Guerra Fria. Em 1983, Petrov estava a serviço em uma base de mísseis soviética quando os sistemas de alerta aparentemente detectaram um ataque de mísseis dos Estados Unidos. O protocolo ditava que os soviéticos ordenassem um contra-ataque.
Mas Petrov não apertou o botão. Ele observou que o número de mísseis era pequeno demais para justificar um revide, desobedecendo, assim, o protocolo.
Se ele tivesse determinado um ataque, há pelo menos uma chance razoável de que centenas de milhões teriam morrido. Os dois países poderiam ter acabado envolvidos em uma guerra nuclear total, levando a bilhões de mortes e, potencialmente, ao fim da civilização. Sendo cautelosos no cálculo, poderíamos quantificar seu impacto dizendo que ele salvou um bilhão de vidas. Mas isso pode ser uma subestimativa, pois uma guerra nuclear também teria devastado as formas científicas, artísticas e econômicas de progresso, bem como todas as outras, levando a uma enorme perda de vidas e bem-estar a longo prazo.
Mais adiante no guia, discutiremos por que pensamos que esses efeitos de longo prazo podem ser vastamente mais importantes que “simplesmente” salvar bilhões de vidas de uma catástrofe nuclear.
Ainda assim, até com a estimativa mais baixa, o impacto de Petrov provavelmente ofusca o de Nalin e Landsteiner.
O que essas diferenças de impacto significam para a sua carreira?
Vimos que algumas carreiras tiveram enormes efeitos positivos, e algumas, vastamente mais do que outras.
Parte disso é devido à sorte: as pessoas mencionadas acima estavam no lugar certo na hora certa, o que lhes deu a oportunidade de ter um impacto que, de outra forma, teria sido impossível. Você não pode garantir que fará uma descoberta médica importante.
Mas nem tudo foi sorte: Landsteiner e Nalin optaram por usar seu conhecimento médico para resolver alguns dos problemas de saúde mais prejudiciais de sua época, e era previsível que alguém no alto escalão do exército soviético pudesse ter um grande impacto ao evitar conflitos durante a Guerra Fria.
Então, o que isso significa para você?
As pessoas muitas vezes se perguntam como podem “fazer a diferença”, mas se algumas carreiras podem resultar em milhares de vezes mais impacto do que outras, essa não é a pergunta certa. Duas opções de carreira podem “fazer a diferença”, mas uma pode ser dramaticamente melhor que a outra.
Em vez disso, a questão-chave é: quais são alguns dos melhores modos de fazer a diferença? Em outras palavras: o que você pode fazer para dar a si mesmo a chance de ter uma das carreiras de maior impacto? Como as carreiras de maior impacto realizam tanta coisa, um pequeno aumento em suas chances significa muito.
Os exemplos acima também mostram que os caminhos de maior impacto podem não ser os mais óbvios. Ser um oficial no exército soviético não parece a melhor carreira para um aspirante a altruísta, mas Petrov provavelmente fez um bem maior do que nossos líderes mais célebres, sem mencionar nossos médicos mais talentosos. Ter um grande impacto pode exigir fazer algo pouco convencional.
Então, qual impacto você pode ter se tentar, enquanto ainda faz algo pessoalmente gratificante? Não é fácil ter um grande impacto, mas há muita coisa que você pode fazer para aumentar suas chances. É disso que falaremos nos próximos artigos.
Mas primeiro, vamos esclarecer o que queremos dizer com “fazer a diferença”. Temos falado sobre vidas salvas até agora, mas essa não é a única maneira de fazer o bem no mundo.
O que significa “fazer a diferença”?
Todos falam sobre “fazer a diferença”, ou “mudar o mundo”, ou “fazer o bem”, mas poucos definem o que querem dizer com isso.
Então, aqui está uma definição. Seu impacto social é dado por:
O número de pessoas cujas vidas você melhora e quanto você as melhora, a longo prazo.
Isso significa que você pode aumentar seu impacto social de três maneiras:
- ajudando mais pessoas,
- ajudando o mesmo número de pessoas em maior medida (ilustrado abaixo) e
- fazendo algo que tenha benefícios que durem por um longo tempo.
Achamos que a última opção é especialmente importante, pois muitas das nossas ações afetam gerações futuras. Por exemplo, se você melhorar a qualidade da tomada de decisão do governo, você pode não ver muitos resultados quantificáveis a curto prazo, mas terá resolvido muitos outros problemas a longo prazo.
Por que escolhemos esta definição? Temos um artigo distinto sobre a nossa definição, mas aqui estão alguns apontamentos breves: Muitas pessoas discordam sobre o que significa tornar o mundo um lugar melhor. Mas a maioria concorda que é desejável que as pessoas tenham vidas mais felizes e satisfeitas, nas quais elas atinjam seu potencial. Portanto, nossa definição é estreita o suficiente para captar essa ideia. Além disso, como mostraremos, algumas carreiras fazem muito mais para melhorar vidas do que outras; então, ela captura uma diferença realmente importante entre as opções. Se alguns caminhos podem ser bons para salvar centenas de vidas, enquanto outros têm pouco impacto, essa é uma diferença importante. Mas a definição também é ampla o suficiente para abranger muitas maneiras de tornar o mundo um lugar melhor. É ampla o suficiente para abranger a proteção ambiental, visto que se deixarmos o meio ambiente se degradar, o futuro da civilização pode ser ameaçado. Dessa forma, proteger o meio ambiente melhora vidas. Algo importante é que ter um escopo amplo também nos permite incluir animais não humanos, assim como potenciais seres sencientes futuros que podem ser inteiramente digitais: razão pela qual temos perfis sobre pecuária industrial, bem-estar animal selvagem e senciência artificial. Apesar disso, a definição não inclui tudo o que pode importar. Você pode pensar que o meio ambiente merece proteção, mesmo que não melhore a vida das pessoas. Da mesma forma, você pode valorizar coisas como a justiça e a beleza estética por si mesmas. Na prática, nossos leitores valorizam muitas coisas diferentes. Nossa abordagem é focar em como melhorar vidas e, em seguida, permitir que as pessoas considerem independentemente o que mais elas valorizam. Para facilitar isso, tentamos destacar os principais juízos de valor por trás de nosso trabalho. Acontece que há muito que podemos dizer sobre como fazer o bem em geral, apesar de todas essas diferenças. |
Como você pode medir o impacto social? Estamos sempre incertos sobre quanto impacto diferentes ações terão, mas tudo bem, porque podemos usar probabilidades para fazer comparações. Por exemplo, uma chance de 90% de ajudar 100 pessoas é aproximadamente equivalente a 100% de chance de ajudar 90 pessoas. Embora estejamos incertos, podemos quantificar nossa incerteza e progredir. Além disso, mesmo diante da incerteza, podemos usar regras gerais para comparar diferentes cursos de ação. Por exemplo, mais adiante neste guia de carreiras, argumentamos que, se todo o resto for igual, é maior o impacto de trabalhar em áreas negligenciadas. Então, mesmo que não possamos medir com precisão o impacto social, ainda podemos ser estratégicos ao escolher áreas ignoradas. Abordaremos muitas outras regras gerais para aumentar seu impacto nos próximos artigos. |
O impacto social é tudo que importa? Não. Não sabemos as verdades finais da filosofia moral, mas no mundo real achamos que é muito importante não focar somente no impacto. Em particular, é normalmente melhor — até da perspectiva do impacto social — sempre agir com bom caráter, com respeito pelos direitos e valores dos outros e prestar atenção às outras coisas que você pessoalmente valoriza. Não endossamos fazer algo que parece muito errado da perspectiva do senso comum, mesmo que pareça lhe permitir ter um impacto maior. (Leia mais sobre a nossa definição de impacto social) |
Então, como você pode melhorar vidas com a sua carreira?
No próximo artigo, abordaremos como qualquer graduado universitário pode ter um grande impacto em qualquer trabalho. Após isso, abordaremos como escolher um trabalho no qual você possa cumprir seu potencial de impacto.